Um abraço de musk e vida


Quando criança eu era impávida e independente. Ser a mais nova tem disso, crescer apressadamente tentando acompanhar as irmãs mais velhas, não ficar para trás ou ser rejeitada nas brincadeiras. Desde muito pequena não gostava de abraços, de muito colo – e ser uma menina grandona não tornava as coisas para os adultos muito mais fáceis. Meu negócio era subir em ameixeira e flamboyant ou me equilibrar sobre muros de tijolos, procurar plantas para fazer meus ‘feitiços de bruxa’ e brincar com os cachorros no quintal.
Em uma das minhas primeiras escaladas, aos dois anos e meio mais precisamente, subi na cama de cima do beliche das minhas irmãs. Aquela cama tão alta, tão acima do meu berço de bebê parecia algo incrivelmente diferente, uma etapa acima a vencer, e como parecia divertido demais aquele lugar em que elas faziam de conta que era um navio, ou a torre da princesa a ser salva, galguei os degraus da escadinha e lá fui explorar aquele recanto proibido coberto por uma colcha com estampas da Sarah Kay. O que não contava era que a cama teria uma borda, e dali nada mais a me segurar. O chão de carpete bege claro foi o limite, e a partir de então tudo ficou estranho e escuro.
Entre o contato com parentes em tempos que não havia rede social, smartphones ou localizadores instantâneos, entre a agonia de minha mãe e da babá até que chegasse socorro, entre a emergência do hospital, diagnósticos pouco precisos e a transferência para um centro de referência em uma cidade maior, apenas um corpinho mole era carregado de um lado para outro. Duas letras eram freneticamente gritadas pelos corredores brancos e estéreis, seguidas de outras três: TC e UTI.
Desesperada, minha mãe, molhada das chuvas incessantes dos invernos do Sul, só implorava para que não fechasse os olhos. Sua blusa de lã bege e preta, a saia rodada cor de camurça combinada com as botas sem salto, o relógio de pulseira gris clara, a mesma cor dos cabelos louro acinzentados. Mal chegara aos trinta anos, e já sabia mais de amor do que qualquer pessoa nesse mundo. Cheirava a almíscar suave, uma mãe corça desesperada pela cria. E chovia cada vez mais.
De todas a mais parecida, o mesmo olho verde puro, sem outro tom ao meio, apenas um ou outro salpicado dourado próximo à menina. O mesmo cabelinho, parte mais claro e liso, parte mais cacheado e escuro, e o mesmo pescoço longo. E ali estava sem saber se haveria um amanhã. Soltou a mão da maca, sentou na saleta com uma televisão pequena e feia, e entregou-se à reza e à espera.
- Se ela passar desta noite, se o inchaço ceder e as funções retornarem, veremos quais serão os próximos passos. Não sabemos como ficará a visão, a fala e os movimentos, mas ainda é muito cedo para uma conclusão.
Foi com esse recado que o neuropediatra autorizou que ficasse junto ao leito. E ali, conversando com sua homônima, passou a noite, com a chuva indo embora cedendo seu lugar a uma geada de julho.
Minha primeira lembrança - não só do retorno do coma, mas de toda minha vida - começa aqui. Senti o confortável cheiro do Musc da L’Arc en Ciel ao meu lado. Abri os olhos e disse:
- Tem um pinguinho rápido e um devagar, mamãe.
Ela levantou a cabeça, exausta que estava em seu cochilo à beira da cama, e com os olhos verdes e serenos disse:
- Sim, cada pinguinho corre diferente meu amor.
Eram os medicamentos junto à bolsa de soro, a primeira coisa que meus olhos conseguiram ver, seguidos dos seus olhos e dos cabelos cinzentos. Aliviada, me abraçou em sua maciez de lã e almíscar, com algo de sândalo e aldeídos. A partir dali a esperança voltou, e logo fomos retomando nossos dias, passado o pavor inicial. Depois daquele abraço, eu sabia para onde voltar. Esse, para mim, se tornou o perfume de que tudo de alguma forma ficará bem.

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