Starways to heaven - Montana Parfum de Peau - EDP e EDT - Resenhas

Claude Montana foi um dos estilistas que criaram as epítomes oitentistas da moda escultural. Assim como Hervé Léger, Azzedine Alaïa e Thierry Mugler, eles transformaram as mulheres cobertas de jérseis e cetins da era Disco em esculturas pontiagudas de tafetás ou comprimiram-nas nos vestidos-bandagem que lhes evidenciavam cada milímetro das formas. Geometria, cores, arestas. O choque visual ao gosto yuppie, que cinzelou topetes às alturas e ombreiras gigantescas. Exageros bem pensados para demonstrar a ostentação de quem atingiu seu primeiro milhão de dólares antes dos 30. Que, metaforicamente chegou ao último degrau, quem subiu na vida, quem ocupava as penthouses em que se davam festas inenarráveis. No alto, no topo.
Essas duas fragrâncias, cada uma a seu modo, mas com a mesma alma, são escadas espiraladas e esculturais, cheias de incenso e mel. 
Na versão EDP, em seu frasco azul escuro e misterioso, o mel é mais grosso e presente. As fumaças resinadas estão próximas à pele, bem persistentes. Tem mais peso, mais substância. Como seu contemporâneo Byzance de Rochas, é grande e multifacetado. Seus degraus são mais suaves, porém a escada é mais alta, daquela que só de olhar para cima a vista cansa, e deve ser subida passo a passo, com breves pausas ao longo do caminho. É uma evolução lenta, mas nada monótona. Em um degrau aparece um assabonetado cravo, em outro uma crepitante pimenta. Mas o incenso está sempre lá, em seu sentido de per fumum, de fumaça perfumada que sobe aos céus para agradar os deuses. 
O EDT é mais arejado, porém uma escada mais íngreme. Os degraus são mais altos, mas o topo chega mais rápido. Quem estiver disposta(o) a dar o primeiro passo encontra algumas groselhas-pretas, flores brancas narcóticas e melífluas. Do alto da escada escorre mel, doce e cristalino, como uma cortina de vidro, em ponto de calda. Mais adiante mais flores - nervosas - agressivos narcisos, jasmins carnais e rosa damascena vermelho-escura, tinta. Nos últimos degraus os vapores ambarados mesclados ao incenso profano e ao couro sensual. Tem maior rastro, mais presença.  
São semelhantes e diferentes, acho-os fantásticos para demonstrar as diferenças entre EDP e EDT, em que aquele que ganha em longevidade consequentemente abre mão de parte da projeção. Minha versão EDP é vintage, está guardada no escuro, com todo o cuidado, e até o momento não aparenta oxidação ou alteração significativa. O EDT dura de oito a nove horas, com projeção persistente até sua meia vida. O EDP passa tranquilamente das doze horas, ficando mais próximo à pele a partir da terceira. 
Para mulheres que acreditam que tudo que reluz é ouro e que podem comprar uma escada para o paraíso, Claude Montana já mandou a fórmula. 





Comentários

  1. Esse diamante de Montana me entorpeceu desde o primeiro contato com uma mini, na busca pela fragrância do Exubérance do Boticário. Que descoberta mais mágica, tive que adquirir um frasco, também vintage, essa escadinha azul e única. Lindo demais, morro de amores por ele, toda vez que sinto fico indignada, exclamando como conseguiram chegar a este resultado entre incenso, sabonete e mel tão harmônico. Excelente texto e percepção do aroma. Bjus
    Li ( Parfums et Poesie)

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    Respostas
    1. Li, que saudade de você! Eu sei que você tem uma quedinha (ou um precipício?) por esse mel incensado/assabonetado. É fantástico, quando a ousadia e a criatividade dominaram a perfumaria!
      Mil beijos! <3

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