Subo no meu palco, minha alma cheira talco - Narciso Poudrée EDP - Narciso Rodriguez - Resenha

Sou professora, esse é meu primeiro ofício, o maior de todos. Tem uma alma de jurista, tem uma faceta de perfumista, mas antes de mais nada sou professora. Raras foram as vezes que usei quadro branco, flip chart, e tenho pavor de apresentações em Power Point. Sou old school, ou como meu para sempre mentor e orientador me disse: "seu negócio é 'cuspe e giz'". Amo a lousa, encho o quadro, e ao final da aula lá está ele, cheio de rabiscos, setas e sublinhados, uma obra digna de Kandinsky. Minhas mãos estarão brancas, ombros e cabelos cheios da fina poeira, a roupa foi ganhando uma estampa personalizada ao longo da exposição. É o momento de um pequeno show, de atrair a atenção das jovens mentes inquietas, de competir uma luta desleal contra seus smartphones. É um palco, hora de passar o conteúdo preparado antes, por horas a fio, entre leituras, anotações e pesquisas. Como um roteiro escrito para uma peça, um teatro que leva a intangível teoria para a familiaridade da prática. 
Narciso Poudrée me encanta porque me lembra talco, pó de giz. É seco, mas cheio de ternura, como uma aula, uma sala cheia de calor humano. Não é o talco de cosmético, é um talco com flores mornas, com almíscar vivo, palha crocante do vetiver abrandada pela cumarina. É uma lição de elegância com toques modernos.
Quando a aula começa, a sala ainda está meio vazia, tomada pelo aroma floral das primeiras alunas que chegam arrumadas com todo seu capricho, adornadas por seus perfumes de moça. Assim abre N. Poudrée, em flores brancas e rosas vermelhas. Em seguida, a lição começa a ser passada, os tópicos vão tomando conta do quadro negro - que na verdade é verde - gastando aos poucos os pedaços de giz, levantando sua nuvem talcada, tal qual o almíscar polvoroso e a violeta sequinha, que lembra a pilha de papéis sobre a mesa, e agora que a sala se encheu, o burburinho inevitável toma conta. Hora de acalmar a todos, exigir a atenção e iniciar a explicação, o que é extenuante. Precisa-se da firmeza de um vetiver, da afabilidade da cumarina, da paciência do cedro atlas, e de uma dose de alegria de patchouli. É uma relação de confiança que deve ser estabelecida e fortalecida a cada minuto, sólida, mas alegre, próxima, mas respeitosa. Assim é Narciso Poudrée, delicado, mas tem sua firmeza e constância, tem secura, mas tem algo meigo e familiar. Se estende por oito horas, projetando bem nas duas primeiras. 




E ao final da classe, cansada, exasperada, levo a pilha de cadernos e deixando marcas brancas pelo caminho - "é a minha aura clara, só quem é clarividente pode ver". 



Comentários

  1. Adorei o texto. Sou professora da velha guarda e encontrei - me no seu palco. Lindo! Minha alma cheira a talco...

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    1. Oi Deborah! Essa coisa toda da sala de aula, meio teatral, dá uma canseira mas também dá muita alegria! Maravilhoso encontrar uma parceira de lousa e giz, de alma recendente a talco...
      Um abraço perfumado!

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  2. É uma alegria encontrar textos sobre perfumes, bem escritos, com conteúdo interessante, objetivos e divertidos. Estou lendo tds rsrs... Um obrigada perfumado!!!

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    1. Seja mais que bem vinda Deborah!! Que bom saber que esses devaneios fragrantes lhe agradaram. Beijos

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