terça-feira, 1 de agosto de 2017

O retorno do Rei - Byzance de Rochas EDT 2017 - Resenha

Que os soem clarins de prata e que estandartes sejam erguidos. Organize-se um grande banquete, chame-se os menestréis e abra-se a adega. O rei voltou.
Para a alegria de seus súditos saudosos e de sua rainha apaixonada, ele regressa com sua capa, espada e coroa. Um pouco mudado após o exílio, mas ainda assim sábio, imponente e legítimo. 
Incensado, como a Basílica de Santa Sofia deve ter sido em seu apogeu. Um mosaico de notas coloridas e complexas, que, em seus caquinhos vão se completando à magnífica obra conjunta, que somente a distância permite apreciar. Permanece Bizâncio, e, ainda que mudem-se nomes e imperadores, que seja Constantinopla ou Istambul, o título de joia do Bósforo permanece. 
(Imagem oficial, bonitinha) 

Byzance EDT sabiamente mantém a fidelidade à fórmula original, guardadas as proporções e adaptações mercadológicas que 2017 exige, afinal, de seu lançamento em 1987 são exatas três décadas. O frasco ficou bonito, nobre e prático. A rosa búlgara está lá, escura e densa, quase negra. O cravo elegante e refinado - da mesma linha do cravo de D&G e Écoute Moi. Incenso. Ylang-ylang. Resina. Citrinos. Aldeídos. E tuberosa. Ah, a tuberosa oitentista! Ela ainda está ali, só um pouco mais mansa, mais manhosa. 
Que os narizes millenials reclamem, que os habituados aos gourmands e florais açucarados curvem-se à esta majestade. Que entendam o poder de uma borrifada em nuvem e dos colarinhos e écharpes perfumadas por dias. Ele voltou. Vossa Majestade está entre nós novamente. 
Vida longa ao rei Byzance!


(Foto minha, porque a coceira para comprar foi incontrolável)



segunda-feira, 31 de julho de 2017

Hay que endurecerse, pero sin perder el perfume jamás - Habana 1791

Após um longo período de ostracismo, me dedicando a full em um projeto pessoal - que graças à Energia Superior se concretizou - eis que volto. Depois de uma viagem incrível, interna e externamente. Depois de uma outra viagem incrível, à ilha que virou mito e alimenta muitas lendas. Cá estou novamente, neste espacinho que para mim representa uma terapia. 

"Oie!"
"Oigo!" 
Assim começam as conversas em Cuba. Não pretendo me alongar em discussões político-ideológicas. Me atenho a comentar é que é um lugar fascinante. Somente sentindo, vendo com os próprios olhos, andando pelas ruas e praças coloniais de Habana Vieja, provando "moros y cristianos" em algum Paladar, vendo o sol se pôr na brisa do Malecón ao rugido das "máquinas" ao fundo. Flutuando no mar esmeralda de Varadero. Andando de cocotaxi escutando do próprio povo sua versão dos fatos. Apreciando o verdadeiro mojito, com direito à discussão se admite ou não angostura na receita. 
Se te disserem "Vá para Cuba", recomendo que obedeça.


Foi a oportunidade de conhecer, na Calle Mercaderes a Habana 1791. Que preciosidade! Quando cheguei, estava quase fechando, mas, por sorte, consegui encontrá-la de portas abertas a tempo. Um casarão antigo, decorado ao estilo art nouveau, repleto de garrafinhas e aromas. Ali é possível montar uma combinação personalizada de essências e criar sua fragrância. Escolhi criar duas combinações (tive que me impor um limite, até porque não teria como levar vários volumes líquidos na bagagem!) que me agradaram muito em qualidade.


A primeira foi uma combinação floral herbácea, com rosa, lavanda, vetiver e uma acorde fantasia denominado felicidad. A nota de rosa é bastante proeminente, e ganha frescor e um toque picante/adstingente graças à lavanda quase masculina. Durante a secagem, vai ganhando aspecto polvoroso e assabonetado, de muita limpeza, como os perfumes clássicos das décadas de 1940/1950. Algo de L'Air du Temps e sua rosa de sabonete fino de toucador. Vai ser companhia certa na primavera.




A segunda, para celebrar o inverno, foi uma combinação mais quente, com tabaco, chocolate amargo, âmbar, patchouli e o acorde fantasia dulce habana. Resultou em um aroma alcoólico, grande, enfumaçado e cheio de contornos, meio caramelado. Lânguido, projeta como a fumaça dos charutos que sobe em espirais cinza-claras. Permanece rente à pele como licor de chocolate, com um patchouli terroso e vivo. Fiquei contente com as minhas combinações.




Os frascos são charmosinhos, como artigos de botica, de vidro escuro. Infelizmente vazou um pouco durante a viagem, embora acondicionados e transportados com todo o cuidado possível, e o rótulo manchou e ficou borrado. Mas nada que tire minha alegria ao desfrutar das minhas fragrâncias escolhidas a dedo. Estou encantada com tudo, extasiada até agora.



É uma viagem sensorial, que merece ser desfrutada com todos os sentidos alertas, com a mente aberta às experiências diferentes de vida e de história. Foram dias inesquecíveis, que certamente vou guardar com toda reverência. Cuba é uma porção de contrastes, cercada de mitos por todos os lados.

"Oie!"
"Oigo!" 



segunda-feira, 3 de abril de 2017

Folhas de Outono - Burberry Women EDP - Resenha

Terno acalento na face, o vento de outono faz cair as folhas secas e alaranjadas, crocantes a cada pisada, desfazem-se no chão. As noites que vão se alongando pedem mais carinho e aconchego, tons cálidos e sabores adocicados. O caráter doce frutado e licoroso de Burberry Woman EDP o fazem uma bela companhia na estação mais charmosa e terna do ano. 
Notas de frutas maduras, delicadas e levemente temperadas, imersas em calda doce e licorosa. Um doce 'adulto' e refinado, com traços de especiarias e baunilha em fava, fervente, levantando vapores perfumados em uma receita que se apura ao fogo, atiçado de quando em quando, para que suas madeiras espalhem pequenas fagulhinhas brilhantes. 
Tem estilo, tem tempero e requinte, amendoado como Amaretto ou Frangelico, de provar aos golinhos e esquentar o coração. Um frasco redondo, sem arestas, assim como a fragrância, acondiciona esta iguaria para os sentidos.



É bastante intimista, de projeção comedida e duração considerável. Aveludado, macio... Me faltam adjetivos para esta joia ambarada que me acompanha depois do equinócio. Um abraço engarrafado!

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

20 anos atrás... - Moschino de Moschino EDT - Resenha

Pega o batom vermelho e seu estojo de maquiagem. Agora uma generosa dose de mousse, e arma um topete no cabelón. Dá um play na sua BASF com o último sucesso da Madonna, que em seu sonho na Isla Bonita fez todo mundo dançar. Muito lamê, babados e ombreiras, brincos de argola e pedrarias. Estamos em 1987.
A moda é uma hipérbole, em seu excesso de informações e referências que saltam aos olhos e confundem os sentidos. Franco Moschino e suas criações coloridas e irreverentes se consolida como ícone fashion neste contexto over - e sua primeira criação na perfumaria fala este idioma. 
 
 É disso que estou falando!

Moschino de Moschino EDT - sim, é EDT! - tem uma potência típica das fragrâncias oitentistas, em seu bling-bling dourado, rastro poderoso e dezenas de acordes pungentes bem combinados. Um clássico cravo apimentado, que aos poucos vai acalmando para revelar rosas amaciadas pelo tom atalcado e elegante, com os calores do sândalo que para muitos remete ao Obsession de Calvin Klein. Realmente tem o fundo amadeirado e denso, a mesma sensação de envolvimento e densidade do Obsession, porém com algumas nuances e flashes mais florais e adocicados. Assim, fica mais explosivo e polvoroso, menos soturno, mantendo uma aura sexy e atrevida de quem não quer passar despercebida(o). 
 

Comprei em um blind, e não me arrependo. Apesar de forte e talcado (amo!) já ganhou ares atemporais, e como é uma criação bem feita e bem executada, terá sempre lugar cativo na prateleira, para aquelas ocasiões que uma bomba é bem vinda, e que não se está no espírito dos aldeídicos. 
Não precisa nem mencionar fixação e projeção, ambas potentes. Deixa rastro, fica na roupa e na memória.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Sunny days - Roberto Cavalli Acqa EDT - Resenha

Como é início do ano, e geral tá postando em suas redes sociais aquele mooooonte de fotos felizes, em praias paradisíacas, entre vestidos brancos, taças de espumante e pernas para o mar, vamos falar desse lindinho que passa férias em Trancoso ou Jeri, sem abrir mão da bolsa grifada, do dourado e do glamour. 
Acqua de Roberto Cavalli pode ser considerado uma versão mais leve, aquática e vaporosa, que adiciona frescor ao dulçor floral de jasmins e flor de laranjeira do Roberto Cavalli EDP (aquele do frasco dourado, sabe qual?). Fica mais descontraído, fresh, retirando a pimenta - para muitos, incômoda - e a baunilha de fundo, que cede seu espaço para os acordes almiscarados. É chique e menos aparecido, não é para o público 'piscinão' - tanto pelo preço quanto apelo.


Imagem: robertocavalli.com

Um cítrico frutal de maracujá fresco e limão marca uma entrada fizz, que logo casa ao floral, dando ares tropicais e festivos, evoluindo para as melífluas flores de laranjeira e pétalas brancas. Logicamente, a efemeridade cítrica-floral-aquática retira um pouco da duração, não espere aquele efeito prolongado, que gruda até os ossos - até porque ficar até o fim da festa é o erro. Aproveite-o enquanto o drink ainda está gelado, a brisa está gostosa e o papo está animado!
Santé!

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Sutil elegância - V Pour Elle EDP de Vivara - Resenha

Uma boa criação. A joalheria Vivara conseguiu marcar presença e ampliar mercado com a linha de joias de prata Life, voltada a um público jovem e àquelas pessoas que sonham com uma peça da marca, sem, contudo, desembolsar valores acima de quatro dígitos. O branding esperto em shopping centers também funciona, sem tirar o prestígio e o glamour de joalheria e seus objetos de desejo. A fragrância feminina V Pour Elle, em versão Eau de Parfum, traduz bem este espírito da marca, com delicadeza e elegância.
Classificado como "floriental", tem os mesmos lírios do Allure Sensuelle EDT da Chanel, flores cálidas e melífluas, algo morno, com vapores ambarinos e frutal adamascado. O fundo de madeiras resinosas garante distinção, formando um acorde adulto e elegante, que repousa bem na pele.
O valor, para o mercado nacional (R$ 210,00), empata com Elysée d'O Boticário e demais promessas de EDP, que encaram os pesados quarenta e tantos por cento de tributação. Ou seja, é belo, é elegante, mas, quem tem acesso a importados grifados, talvez prefira outras opções.

Imagem: vivara.com.br
 
E, uma observação: o frasco poderia ser mais caprichado. A tampinha, em um plástico cheio de rebarbas e arranhões (ao menos no meu estava) tira pontos, em algo que deveria transmitir o luxo e a distinção da marca Vivara. Merece uma atenção maior.
Mas ainda assim, vale o teste. Nas lojas físicas, as vendedoras sempre simpáticas e bem treinadas costumam apresentá-lo com entusiasmo. A pausa no passeio certamente será válida.