quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

This never happened - Encounter de Calvin Klein - Resenha

This never happened. It will shock you how much it never happened. (Donald Draper)

Vamos falar de perfume masculino, porque a demanda por uma resenha que não fosse exclusivamente feminina tem crescido... E vamos falar de um bonitão. Vamos falar de um perfume que de cara me remete ao Don Draper, àquele clima de Mad Men. Pega a pipoca e dá play (imagina a musiquinha):



- Don sai de casa pela manhã, limpo e imaculado, bem alinhado, barba muito bem feita, cabelos sem um fio fora do lugar. Cheirando a loção pós-barba e pasta de dentes. Pega o fedora, o trench coat e vai à estação. Betty, coitada, nem imagina as milhares de coisas que acontecem no dia do marido, na verdade nem sabe quem é o marido. Encounter é misterioso, é frio... não tem carinho: é bonito, passa uma ótima impressão, paga todas as suas contas, mas tem arestas, é gelado. Não chama para o contato.
- Chegando no escritório, para começar bem o dia, uma dose de conhaque. Encounter é alcoólico, boozy. Não é o alcoólico-baladinha, é o copo de old scotch para tomar sozinho, no escritório ou no balcão do bar, pensativo. Tem algo de rum ou gim, transparente, sem malte, a bebida alcoólica pura mesmo. Isso é intrigante, porque na maioria dos perfumes masculinos essa nota é trabalhada num aspecto levemente adoçado, como Guerlain Homme ou Bvlgari Men In Black. Aqui é destilado e cortante, desce rascante pelas narinas, como um gole de conhaque puro. E conhaque logo esquenta, não é?
- O almoço será estrategicamente planejado para conquistar um cliente. Nos almoços de negócios a comida é sempre coadjuvante, na verdade a conversa e a conquista valem apenas à persuasão e ao convencimento. Encounter leva pimenta seca, que o revela crepitante e rochoso, não tem nada de gustativo, é uma sensação de pedra molhada pelo gim, e só.
- À tarde, um encontro com a amante, disfarçado de reunião de negócios ou visita a cliente. É no meio da evolução que aparece uma face muito, mas muito leve de floral - seria jasmim branco? Como se a bela da tarde deixasse um restinho de seu próprio perfume no colarinho, no abraço demorado. Pouco - o suficiente para intrigar a linda e inocente esposa em casa, quando for lavar aquela camisa...
- O fim da tarde pede um happy hour. Quem disse que a faceta alcoólica foi embora? Ela ainda está ali. Uma dança de fumaça de cigarrilha, a fumaça esbranquiçada e fina, aromatizada, graças ao oud final. O amadeirado que segurou-se alinhado até o entardecer, que não ficou descomposto, não tem ressaca e não demanda um copo com Alka-Seltzer. Nenhum fio de cabelo saiu do lugar. Chove lá fora, e é preciso voltar.
- No trem, a volta para casa, contemplando os pingos escorrendo pela janela, o céu azul escuro e acinzentado como o belo frasco, quadrado e perfeito. O final é chuvoso, garoa fina gelando o rosto, uma ponta remorso que some tão rápido quanto surgiu. O amadeirado umedecido pelos pingos de chuva.
- Com o mesmo silêncio que saiu pela manhã, chega em casa. A esposa o espera, jantar pronto, banho preparado. Tudo está onde e como deveria estar. Encounter jamais entregaria seus segredos...

Imagem: calvinklein.com



O amor é algo que caras como eu inventaram para vender meias-calças...

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Pass me a bottle, Mr. Jones - Eau de New York EDP de Bond nº 9 - Resenha

Se você, como eu, passou as preguiçosas tardes da adolescência curtindo MTV e ligando para que seu clipe favorito estivesse no Top 10 (isso, claro, se seu modem dial up 56k não estivesse conectado à linha telefônica), provavelmente você pediu esse clipe do Counting Crows... Eu pedi! 

Novamente, solta o som MyBoy:


Pronto, coloca sua camisa de flanela xadrez e sacode os dreads. Shalalalalala...

Agora nessa pegada dos tempos em que Bill Clinton, Lady Diana e Madre Teresa eram assunto, vamos à resenha propriamente dita. Eau de New York é cool, compartilhável, é um episódio de Friends. Diverte, e não tem como dar errado. Na primeira impressão, maculada pelo apelo comercial típico da perfumaria (que adora associar imediatamente os cítricos aromáticos ao universo masculino), dá um recado que é destinado aos rapazes. Mas não, é para todo mundo - Dá aqui essa garrafa, Mr. Jones!
Eu adoro o cheiro de manjericão, e Eau de New York é herbáceo, verdejante e amarguinho. Muitos cítricos: limão, pomelo, toranja... toda a família 'Citrus' (pausa porque nessa hora provavelmente você estava fazendo a tarefa de casa de biologia, e tinha que saber reino, filo, classe, ordem, família e toda essa coisarada que cobrariam no vestibular!) O citrus que lembra as bebidinhas dos pileques que renderam suas primeiras ressacas morais - bem esse! O fundo é um musk-almiscarado e levemente amadeirado, novamente, amarguinho, que dá uma sensação de limpeza e refrescância, tal qual os drops que esquecíamos nos bolsos. Mostra uma versatilidade: agrada moços de terno, hipsters de barba e gorro, mocinhas preppy, executivas duronas, Mr. Jones e Marias. Aquele povo todo junto e misturado em uma calçada do centro de Nova York. Sua diversidade o torna único, agrada a todos, mas nada forçado ou maçante, apenas autêntico. Projeção: mediana e controlada, com fixação de 7 horas, bastante linear.


Imagem: http://www.bondno9.com/


Já peço perdão pelo post nostálgico, mas minhas manhãs de sábado ainda pedem Eau de New York - para lembrar de um tempo que meu maior compromisso era ir bem em uma prova de física! "Mr. Jones and me, we're gonna be big stars"



quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Verão, sombra, água fresca e meu perfume - Mesa redonda de blogs

O calor em seu auge, o sol abaixo do trópico em todo o seu potencial. Estação de umidade e chuvas para um lado, ou de secura para o outro. São vários os nossos verões, e são várias as formas de encarar essa estação tão amada por uns, e tão praguejada por outros. 
Não é fácil trabalhar nesse calorão, olhando da janela um clima mais que convidativo para uma praia/piscina/cachoeira/banho de mangueira ou o que tiver ao alcance - o mar está a quase 800 km de mim nesse momento! E se a obrigação chama, pelo menos tentamos carregar um pouco do frescor tão almejado. 
Agora, se você está de férias, ou nos fins de semana que pode ficar de papo para o ar. Ah, nesses dias o verão se faz valer! Aquele relax mais que merecido, o 'dolce far niente' e a malemolência do calor. Uma bebidinha refrescante, o balançar da rede... e esses perfuminhos aqui:

Cologne France - Molinard
Ai que bonita! A maravilha de esparramar colônia com as mãos, sem medo de enjoar. Fresca, cítrica e límpida. Gosto mais que 4711, juro juradinho! Vai bem no trabalho, no eau de pijama, no passeio. Tem um frasco fofo demais da conta, com cara de antiguinho, uma paixãozinha. Se joga!


Cedrat - Roger & Gallet
Tem como não amar essa coisica que leva chá de hortelã? A colônia Cedrat tem um frutal levinho, de água saborizada em refresqueira de cristal, sabe como? É divina! O nome remete à madeira de cedro, mas nesse quesito a colônia da Phebo, Cedro do Marrocos, conseguiu passar mais a impressão amadeirada, mas lógico, esse é o remanescente predominante na pele, no tempinho efêmero que só uma colônia sabe ter. 





Cool Water Frozen (F) - Davidoff
Favor, não xingar por mencionar edição limitada de quinze anos atrás! (Se a vontade for muito grande, dá pra tentar a sorte no e-Bay) Esse EDP tem cheiro de cachoeira com raspadinha de abacaxi! Flor de lótus, vetiver encharcado, uma nota esperta de bambu... E campânula. No mesmo efeito do Dolce & Gabbana Light Blue. O nome é autoexplicativo - para usar direto sobre a pele.



Little Italy - Bond nº 5
O chic é chamar de clementina, mas como criança interiorana eu conhecia essa fruta como "laranja de enxerto" (impressionante, consegui tirar o glamour da coisa!). É um caldo de clementina, laranjas, tangerinas e limão doce, "polido" por um almíscar limpo, para não dar aquela impressão de fruta melecada. O óleo das cascas dá uma luminosidade especial, o frasco laranja-cheguei é a cara do verão. Animadíssimo!




Surreal Garden - Avon
Esse é um amigo dos fins de semana. Chypre. A melhor definição do estilo... Mato fresco, macerado, beira de rio, sem uma gota de fruta ou açúcar. Banho de cheiro, patchouli, raízes amassadas, pétala de flor esmagada entre os dedos. Custa pouco, vale muito, fixa, projeta e faz bonito. 



Outras mesas redondas nos links: