quarta-feira, 27 de maio de 2015

Três Irmãos e Três Vícios - Resenha Tripla Dior Addict 2014 Edition

Já leu os irmãos Karamazov, de Dostoiévski? Não? Dormiu na primeira página? Entendo... Leitura pesadona, como só a literatura russa sabe ser. Caso não se importe com spoilers lá vai: São três irmãos - Dmitri , irmão somente por parte de pai, Ivan e Aliéksiei, em conflitos, disputas de família e uma tristeza que não tem fim. Mas fica por aqui. Já dos três irmãos Dior, o que posso adiantar é que a linha Addict - que também é linha de maquiagem e beleza - foi completamente reescrita nas propostas de 2014. São três as fragrâncias: Dior Addict Eau de Parfum, Dior Addict Eau de Toilette e Dior Addict Eau Fraiche, que são absolutamente diferentes, distintas, e, assim como os Karamazov, esses irmãos de parecido só têm o sobrenome.

Dior Addict Eau de Parfum
Ele seria o Dmitri, sangue quente... Addict EDP nesta edição de 2014 desagradou muita gente, porque não guardou muita similitude com o Addict EDP de 2002 - cuja legião de fãs é enorme - assim como Dmitri, ele renega seu velho pai, mas ainda conserva algo do genótipo inevitável. Tem canela? Tem! Assim como mandarina, baunilha e jasmim. Mas o que falta para ser igual ao DA EDP 2002? Falta rosa e fava tonka, que deixavam-no mais sensual e encorpado. Na edição 2014 Addict EDP é levemente salgado, em uma cremosidade algo granulosa - a mesma sensação agridoce do caramelo com flor de sal. 

Dior Addict Eau de Toilette
O Ivan do trio Karamazov, o Eau de Toilette é puro, floral, linear. Falei dele rapidamente aqui. Há quem diga que é um flanker do J'Adore que Dior "escorregou" para a linha Addict - realmente a leitura do jasmim é a mesma. Mas aqui não tem aquela cremosidade untuosa das flores brancas do J'Adore, ele tem um cítrico mais aberto e sândalo no corpo, que o tornam mais prático e usável que o tio dourado.



Dior Addict Eau Fraiche
O caçula que virou monge, Aliéksiei, Eau Fraiche é fresco como neve derretendo na primavera, o que o faz um curinga maravilha para o calor. Frésia, frésia e mais frésia. Tangerina miúda e verde, que ainda está no pé esperando amadurecer. Almíscar cristalino. Fórmula que não dá errado, não dá vexame e não dá enxaqueca. Um ventilador voltado para o pescoço, balançando cabelo... e por óbvio, nessa construção leve e vaporosa a duração é um tanto efêmera, mas nada que o desabone. Poderia jurar que tem algo de maçã verde, ainda que leve, em no seu sabor crocante e adstringente.


Cada um na sua linha, esses irmãos são uma proposta certeira da Dior para "rejuvenescer" a marca na perfumaria - além do Miss Dior - e consolidar a fidelidade de um público que facilmente se assustaria com um Diorella.




sexta-feira, 22 de maio de 2015

Eu prefiro ser, essa metamorfose ambulante! - Mesa redonda de Maio

Metamorfose... a transformação, de lagarta à borboleta, de homem para barata (seria mesmo uma barata?) na leitura de Kafka, lenta e gradual conforme Darwin, de homem para mulher como Bruce Jenner, de mulher para homem como Tammy Miranda. Antoine Lavoisier já dizia que, nada se cria, tudo se transforma. Ou mesmo no pensamento do I-Ching: "tudo é mutável, menos a própria mutação, que é constante, e isso demonstra a essência da vida". Mudança, transformação... Um aroma frio e distante que se torna quente... Um aroma sensual e picante que se torna manso. A flor inocente que depois de algumas horas se transforma em madeira em brasa... Quantos não são aqueles que se decepcionam com a mutabilidade de alguns perfumes "na primeira borrifada eu amei, mas passada meia hora se tornou horrível" - esperando uma linearidade diferente da sinfonia de notas proposta pela criação. Seguem alguns daqueles perfumes que, em minhas impressões, se alteram ao longo do tempo sobre a pele, em verdadeira metamorfose ambulante.


A Metamorfose: De Madame Poderosa à Gótica Soturna 
O Perfume: Giorgio Beverly Hills
Primeiramente: para funcionar, não pese a mão, caso contrário, procure o pronto-socorro mais próximo para um oxigênio... é uma borrifada de nuvem, e só. Aí funciona, tão bem como só os florais enoooormes e potentes dos late 80's sabem ser. Aldeído, flor branca - o infalível trio tuberosa, jasmin e gardênia - e rosas coloridas. Glam ao extremo. Mas aí a madame vai dar uma voltinha no cemitério (visitar o túmulo do falecido?) e então se veste de preto, limpa o batom rosa pink e passa um bordeaux bem escuro. Um musgo de carvalho bem fechado, patchouli de terra molhada, algo levemente 'sujo'... Giorgio se transforma! Ao menos dá um tempo razoável nessa transformação, até que a mente e o nariz consigam assimilar essa riqueza olfativa toda!
Imagem: http://www.giorgiobeverlyhills.com/en/giorgio-beverly-hills/



A Metamorfose: De Gelol à Fogueira acesa 
O Perfume: Ange ou Démon Eau de Parfum de Givenchy 
Já falei dele aqui. Mas não tem como, dentre as metamorfoses preferidas, não lembrar desse anjinho safado... De início gelado, à la musa anos 20 como Jean Harlow, sobre a pele ele ganha contornos cálidos, toma de empréstimo alguns graus daquele que o 'veste'. E caminha para o incenso de ritual profano, fogueiras e oferendas. Esquenta com a resinada fava-tonka, com ares enfumaçados. É anjo caído, que se volta aos calores do Hades. 

 Imagem: www.givenchyconversations.com


A Metamorfose: Do mato ao chocolate 
O Perfume: Covet de Sarah Jessica Parker
Covet é o campeão de surpresa: "mas eu achei tão diferente quando passei". Herbáceo, lavanda seca e flores úmidas de brejo - lírio do vale e magnólia. Aí passa para um chocolate azedo, como o cacau em pó puro para culinária, ganhando ainda mais 'azedume' com gotas de limão. O fundo amadeirado almiscarado levemente aquecido, adquire traços andróginos, e faz do Covet uma fragrância praticamente unisex. Não compre sem testar, sem dar "tempo ao tempo", ele tem uma transformação brusca sobre a pele, que pode assustar os mais desavisados!

Imagem: http://www.sarahjessicaparkerbeauty.com/sjpnyc


Participantes da mesa deste mês:

Floral e Amadeirado - Lu Marques
Templo dos Perfumes - Cris Nobre




terça-feira, 12 de maio de 2015

De tudo ao meu amor serei atento - Poême de Lancôme - Resenha

Poême não poderia ter melhor nome... é poema, é soneto - rima e métrica da perfeição. Constante e linear, na melhor doçura de mel e flor, cálido bafejo em carta apaixonada. Se a Lancôme lança-se na atualidade na doçura crocante e amendoada de La Vie Est Belle, no auge dos 1990's a doçura era outra - mel, flores e frutas, clássicas e enamoradas, muito dourado e barroco, o cancioneiro do menestrel. 
Envelheceu? De maneira nenhuma! Deveria haver uma escola para ensinar "Como usar a groselha ao estilo Poême", xaroposa, nada ardida, que não efervesce até à enxaqueca - no lugar dessa groselha teenager/sour que domina o século XXI. Que seja gold passional, de sala rica com cortina de veludo, tapetes persas e poltrona Chesterfield, um rococó refinado de nascença.
A melhor pedida para o frio? Um casaco chic grifado e duas borrifadas de Poême. Aquece e apaixona, como um verdadeiro poema de amor... 
Duração: excelente, passa de oito horas, de maneira bem constante. Projeção digna de EDP dos bons. Está no meu top 10 de novos clássicos. 


Imagem: http://www.lancome.fr

E aí, Vinícius, o que você acha?

"Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure"

Então tá!



Este post contém link do parceiro Glio (www.glio.com)