sexta-feira, 17 de abril de 2015

Uma ópera e um fantasma - Fantasme de Ted Lapidus - Resenha

"Prima donna, brilhante e leve, enche o palco". Estou apaixonada por Fantasme, na verdade não estou, eu sou apaixonada - é paixão de longa data, mais precisamente desde seu lançamento, enfeitando as prateleiras que cobicei na infância. 
A despeito de seu nome, que poderia dar alguma ideia de morbidez, esse fantasma não é assustador, ele é mais para a presença antiga, no teatro iluminado de cor âmbar, que não arrasta correntes, mas apenas move suavemente as cortinas e treme a chama das velas. 
Tem um quê antigo, empoado, de maquiagens e figurinos. Um jasmim perfeito, um corpo floral digno do bouquet para a 'reverence' da artista, que aparece desde o início, passando para um doce de fruta bem madura no segundo ato, e o gran finale fica por conta de uma das melhores interpretações da combinação sândalo + baunilha. Nisso ele cresce, e dura muito, com uma projeção deliciosamente calculada, que a cada movimento reaparece, como um espectro - um fantasma.
Tel Lapidus assina fragrâncias de duração prolongada, basta dar uma fungadinha no Ted Lapidus masculino e no Altamir (tio fino do One Million, menos cafona), e Fantasme não é diferente. E, algo que percebo em comum entre essas fragrâncias, é a forma em que a nota de abacaxi é bem trabalhada, longe daquele estilo que vai para o cítrico, mas sim uma fruta bem madura, bem doce e sem acidez. 
Ótimo para as estações frias que se avizinham.

 Imagem: www.ted-lapidus.com

Se Ted Lapidus se inspirou em "O Fantasma da Ópera" para a criação de Fantasme, acertou em cheio na vibe teatral, passional e feminina... E como costuma ser com as criações da casa: não custa muito caro (em tempos de dólar alto, isso está pesando muito nas escolhas ultimamente!)


quinta-feira, 16 de abril de 2015

Livros e Perfumes – Amor em dose dupla – Mesa Redonda de Abril




“Os livros são objetos transcendentes, nós podemos amá-los o amor táctil”, segundo Caetano Veloso. Amo livros, demais, de Guimarães Rosa a Dostoiévski, de João Ubaldo Ribeiro a Ken Follett. Atualmente estou mais nos livros acadêmicos do que literários, mas isso é só questão de tempo, logo volto às minhas viagens a cenários longínquos, ainda que da poltrona da sala. Perfumes me provocam essa mesma sensação: viagens sem sair do lugar, divagações e impressões. São formas de expressão e de arte.
Como adoro a associação entre perfumes e pessoas, seguem alguns perfumes e algumas personagens do mundo da literatura, que têm a mesma 'linguagem' e me trazem os mesmos sentimentos.


A Personagem: Diadorim (Grande Sertão Veredas – Guimarães Rosa)
O moço quieto e ressabiado, em cujos olhos "o verde mudava sempre, como a água de todos os rios em seus lugares ensombrados. Aquele verde, arenoso, mas tão moço, tinha muita velhice, muita velhice, querendo me contar coisas que a ideia da gente não dá para se entender". A paixão dúbia que desperta no companheiro Riobaldo, seus silêncios, reticências e ciúmes. Sentimento árido e espinhoso como o sertão: “Amor é a gente querendo achar o que é da gente”.

 Eternizada por Bruna Lombardi, a personagem Diadorim. (Imagem: globo.com)

O Perfume: Duel, de Annick Goutal
O próprio nome “duelo” já diz tudo: um embate, entre masculino e feminino, entre mate verde e raízes secas. É áspero, de início, mas sob tantas camadas de couro existe uma delicadeza oculta, e quem a encontra fica maravilhado. Diadorim morre em um duelo, em uma luta corporal digna de sua valentia, é ali que Riobaldo descobriria que sempre teve por companhia, em verdade, Deodorina.
Imagem: www.annickgoutal.com


A Personagem: Capitu (Dom Casmurro – Machado de Assis)
Ah, as heroínas machadianas, seus melindres e caprichos que atormentam aqueles homens que lhes são devotos, e que ao mesmo tempo as odeiam. Capitu e seus “olhos de ressaca, de cigana oblíqua e dissimulada”, a eterna dúvida e distância, criatura mui particular, mais mulher do que Bentinho era homem.
Na juventude, suas mãos “a despeito de alguns ofícios rudes, eram curadas com amor; não cheirava a sabões finos nem águas de toucador, mas com água do poço e sabão comum trazia-as sem mácula”, Qual o perfume de Capitu? A Natura fez uma apimentada homenagem, chamada “Encantos de Capitu”, mas achei adocicada demais, não combinando com seu espírito ousado. 




Capitu, representada por uma impecável Maria Fernanda Cândido (Imagem: globo.com)

O Perfume: Água de Neroli, da Phebo
Por qual razão? Porque a saída cítrica me remete ao quintal verdíssimo dos encontros juvenis de Capitu e Bentinho, que, aos poucos e para quem chega perto, vai se tornando assabonetada, como o sabão que lavava suas mãos. É acessível, porque as origens de Capitu não a permitiriam comprar finos artigos de toucador... E é um sucesso originalmente brasileiro, como Dom Casmurro.

Imagem: www.phebo.com.br


A Personagem: Doutor Jivago (Doutor Jivago – Boris Pasternak)
Não, não vou falar de Lara... Vou falar do próprio médico idealista, que ao final percebe que a sociedade tem tantas mazelas que não vale a pena o convívio, preferindo o exílio. Eternizado no cinema por Omar Sharif, Jivago exercia seu ofício com dedicação, atendendo até os mais pobres, ainda que em noites congelantes. Com um aspecto psicológico interessantíssimo, a abnegação de Yuri Jivago à Tonya, e ao mesmo tempo sua paixão e devoção à Lara, rendem trechos intensos como: tenho ciúmes dos objectos da tua toilette, das gotas de suor na tua pele.





 Omar Sharif, e seu Doutor Jivago (Imagem: theredlist.com)


O Perfume: Dior Homme Parfum
Nada aparecido, mas de alta classe como o doutor. A nota de couro representa sua maleta de profissão, a íris sua origem nobre. É requintado e constante, como o dedicado médico Jivago.

Imagem: www.dior.com/beauty


Outros blogs participantes da Mesa Redonda de Abril:
Floral e Amadeirado (Luciana Marques)
A Louca dos Perfumes (Diana Alcântara)
Odorata (Cris Bazoni)
Parfums et Poesie (Lily Loon)