segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

All that jazz - Carolina Herrera de Carolina Herrera EDP - Resenha

Carolina Herrera, venezuelana de nascimento, daquele tempo em que boas famílias latinas faziam longas viagens de trem, passavam temporadas na Europa e aprendiam todas as regras da elegância e boa convivência. Seu cabelo platinado, primeiro em chignons à la Eva Perón, e depois curtos e impecáveis mostram um refinamento construído, tão bem cortado quanto os colarinhos de suas camisas brancas. Uma camisa CH se reconhece de longe. 
Antes da loucura comercial orquestrada especialmente para as linhas 212 e CH, Carolina Herrera ousou muito ao final dos anos 80. Essa ousadia foi trazida ao icônico Carolina Herrera EDP, aquele da caixa estampada de petit-pois (ou polka dots, se você gostar mais do vocabulário fashionista norte-americano), que possui uma potência enorme, aquele perfume-assinatura que toma conta do ambiente, e que não tem como passar despercebido. 

 Imagem: www.carolinaherrera.com


Ok... let's the party on, let's short the skirts...

Carolina Herrera é um perfume como a Velma Kelly, do musical Chicago. É sim. 



É grandalhão, tem belas pernas em meias-calças pretas de costura atrás. Ri deliciosamente alto, e chama atenção por si. As fragrâncias Carolina Herrera nas versões 212 são para amadoras, são para Roxie Hart. Carolina Herrera EDP é cabelo chanel lisíssimo e preto, é cigarro na piteira, é autoconfiança e talento de nascença. É flor de laranjeira em peso, madeira tinta e muitos quilos de flores brancas - ora, para ser bomba precisa de muitas flores brancas: tuberosa, jacinto e jasmim, o trio perfeito do bom jazz. Notas de fundo fora do uníssono, com civeta, musgo, almíscar, cedro que beira o masculino, e sândalo pesadão, como o ar enfumaçado de um teatro vaudeville. É daquele tempo que perfume devia ser notado, que cada abraço era uma troca de aromas, cada um carregava consigo parte daquele instante de contato compartilhado. Para ter uma ideia: ele permanece até na roupa depois de lavada... 
Mas é bom o bichinho. Muito bom. Borrifa a nuvem, passa na frente e sai para detonar. 'Cause all that jazz!

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Entrevista para Ego in Vitro - Um papo com o expert Daniel Barros

Desde já agradecendo o convite e o espaço cedido pelo Daniel Barros, autor do blog-referência Ego In Vitro, segue o link para a entrevista que fizemos sobre o Parfumée, em que pude contar um pouquinho da história do blog e trocar algumas ideias sobre esse universo perfumado. Como foi publicada no dia 09/11/2015, uma data em que estava absolutamente "head over heels", acabou que não repliquei aqui, do que desde já me desculpo... Mas, agora que as coisas estão, aos poucos, voltando à normalidade, segue o link: http://egoinvitro.com.br/blogueiros/


Ali tem conversas deliciosas com outros bloggers, resenhas e reflexões. Além do mais, o Daniel é autor de dois livros perfeitos para quem quer se dedicar ao estudo dessa arte que beira o vício. Merci, Daniel!!!


Imagens: egoinvitro.com


segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Mesa Redonda de Novembro - Perfumes Paradisíacos

O paraíso é aqui, e pode ser uma floresta europeia, uma praia caribenha, um banho quente de vapores perfumados... Basta conectar a mente a tudo aquilo que agrada e acalma. Me remete a paraíso a possibilidade de desacelerar, de jogar longe nossas prisões voluntárias, como um celular despejando mil notificações ao minuto, uma agenda com mais compromissos do que horas disponíveis ou uma pilha de papeladas enfadonhas. O paraíso pode ser engarrafado em lindos vidros de 30, 50 ou 100ml, e serve como aproximação das férias que nunca chegam e do descanso eternamente a repor. O paraíso pode ser a dobra de um pescoço perfumado...

Allure Eau de Parfum - Chanel
Clap-Clap. Criado, massageie meus pés. Clap-Clap. Abane mais forte. Clap-Clap. Mais vinho. Tá olhando o quê? O paraíso é meu, e eu faço o que eu quiser. O que pode ser: nada! Allure EDP é tão goldie, tão fascinante - baunilha, tangerina e pêssego. Já disse o quanto eu sou fã de pêssego? Em um tapete de jasmins então... Vale o quanto pesa (por aqui passa dos US$ 100,00 o de 100ml, então senta e chora!) Mas como no meu paraíso não tem pobreza, vou desfrutar do meu Allure e da minha champagne. Santé!
 Imagem: http://www.chanel.com


Diorissimo Eau de Toilette - Christian Dior
Uma montanha nevada dos Alpes... Agulhas de pinheiro que coçam o nariz, flores brancas - lírios à beira do lago - e um adstringente de folhas verdes. Um gramado sem fim, até onde a vista alcança. Faz a Julie Andrews e vai rodopiar nesse gramado, até cansar, e ao final, se joga nele e fica procurando figuras nas nuvens. Eu sei, eu sei, Diorissimo parece sisudão - até o nome! - mas aqui estou falando do EDT. Amarguinho, mas muito floral. O paraíso pode ser um bucólico chalé nas montanhas, porque não?

Imagem: http://www.dior.com

Weekend Eau de Parfum - Burberry of London
Monte um look navy, amarra um lenço nesse cabelo e a bordo de um conversível, vá com o boy ao litoral velejar! Aquele chic-despretensioso-nasci-assim. O paraíso pode ser um fim de semana inesquecível, tomando sorvetes em casquinha e passeando em um píer. Tão banal e tão inatingível... Weekend são belas flores, sinto muita flor de pessegueiro e jacinto (essa florzinha difícil, aqui é soberba!), com base carregada em sândalo. Burberry Weekend é um fim de semana nos Hamptons, em um pequeno frasquinho fosco (sim, essa é a versão da qual estou falando). Paraíso aristocrático.

  Imagem: fragrantica.com (é essa a versão, não a nova, do frasco polido!)


Joop le Bain Eau de Parfum - Joop!
Ficar mergulhada na banheira de água pelando, até parecer uma uva-passa. Quer coisa mais terapêutica que isso? Ficar apreciando os vapores perfumados que sobem, encher a água de espumas, sais e essências. Acender umas velas, e ficar ali, só existindo. Terminar com uma sessão de massagens e óleos perfumados, toalhas macias e o sono dos justos. O paraíso pode ser um home-spa de pura auto-indulgência, no cheirinho quente, ambarado, doce e aconchegante do Joop le Bain, algo amendoado, oleoso, que realmente lembra óleo de banho - não é a ducha fria para acordar, é o banho ritual, para relaxar.
Imagem: https://www.coty.com/brands/joop

Born in Paradise Eau de Toilette - Escada
Bonbini a Aruba! Praias de areias brancas, mar azul e vento delicioso, sucessivas piñas coladas (côco e abacaxi aqui casam que é uma belezinha!), beachclubs animadíssimos. Goiaba e melancia, suculentas frutas dos trópicos. Passar o dia de biquíni e vestidinho, renovando o bronzeado (no meu caso, tentando um bronzeado!) com os pés na areia, entre um mergulho e outro. Born in Paradise serve para te deixar numa praia paradisíaca, a hora que quiser.

Imagem: https://www.perfume.com (no site oficial não consta mais!)
 

Seguem os posts da mesa de novembro, nos blogs mais perfumados desse Brasil!
A Louca dos Perfumes - A linda Diana 
Templo dos Perfumes - Poética Cris Nobre
Floral e Amadeirado - Enigmática Luciana Marques
Odorata - O Lord Cris Bazoni

sábado, 7 de novembro de 2015

Comer, rezar, amar - Samsara Eau de Toilette de Guerlain - Resenha

Comer: um dos sentidos mais caros ao ser humano, o paladar. O sabor de pêssegos maduros, ameixas em calda, de casca de laranja glaçada que adoça o chá com canela, da baunilha que perfuma o crème brûlée queimadinho. Doce, amargo e picante. Um exagero aos sentidos, o langor transparente de calda maraschino que lembra licor. É um doce para maiores, quando o paladar já está adulto e aprende a apreciar o acre dos cítricos, as frutas secas e compotas temperadas. Samsara tem sabor de requinte, como sagrada oferenda.

Rezar: O sagrado. Como representar o sagrado, tão íntimo e individual a cada um? A representação do templo, da prece coletiva, que sobe aos céus pelo perfume da fumaça de incenso, das nobres resinas do defumador, do calor das mãos que se unem? Das flores coloridas ao pé do altar, reverenciando o criador com suas mais belas criações? Na meditação solitária e contemplativa de um pôr do sol avermelhado? O sagrado está em toda a parte, e pode estar no rastro de um perfume que não tem medo da ousadia de misturar Íris, Narcisos, Jasmins e Violetas - umas responsáveis pela projeção intensa, outras pela aura de secura atalcada.  

Amar: O sândalo perfumado em leque que vela pudores. O almíscar que lembra um emaranhado de lençóis bem usados, em noite de sono que sobrevém aos amores. O calor e o aconchego quente da fava tonka, amendoada, quase doce. A meia luz das velas e aromas do leito cuidadosamente preparado para a conquista, onde cada segundo é eterno. Samsara EDT tem sensualidade de seda caríssima sobre a pele arrepiada.

Um convite ao deleite e um teste aos sentidos, Samsara EDT é sensual, pungente e encantador. Não resista - será em vão. Fixação excelente, projeção mediana - sem escândalos ou excessos. O prazer é todo seu.


Imagem: http://www.guerlain.com/int/en-int/fragrance/womens-fragrances/samsara/samsara-eau-de-toilette-spray


Dedicado à Andréa, e seu inconfundível Samsara!


Este post contém link do parceiro Glio (www.glio.com)

terça-feira, 27 de outubro de 2015

O que é do gosto regala a vida - Valentina Assoluto de Valentino - Resenha

"Você sabe o que é caviar? Nunca vi nem comi, eu só ouço falar." Troca o caviar pela trufa - e voilà: vamos na onda de Valentina Assoluto. 
É fino trato, 'o printemps com as unhas', luva de pelica, talheres de prata e livro equilibrado na cabeça. "Senta direito, menina!"
Ah, que alegria um chypre chiquetoso, patchouli abafado - quase uma camadinha de poeira sobre o piano de cauda da sala linda e lustra. Como o casarão que se prepara para a festa de gala, decorada com flores e mais flores e um séquito de empregados corre freneticamente para deixar tudo perfeito: é feliz, mas ao mesmo tempo tradicional. Tem sabor, mas não é o docinho pudim/chantilly, é baunilha em fava, fervida, é iguaria requintada de saborear em pedacinhos, o nobre chocolate amargo, que sente-se às beiradinhas, derretendo aos poucos no paladar. Talvez a trufa, que nunca vi, nem comi - só ouvi falar!
Tem muita elegância, mesmo - uma elegância nata de notas que aos poucos foram caindo em desuso, um musgo que como renda 'veste' delicadamente a pele como há tempos não sentia.
Traz um calor belo e aveludado, rente, que projeta moderadamente, e como EDP bom, classudo e 'assoluto' dura muito. Como boa joia, é investimento.
Imagem: http://uk.parfums.valentino.com

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Musa Fitness - Olympéa Eau de Parfum de Paco Rabanne - Resenha

Abra o Instagram no sábado pela manhã. Vai ter foto da sua amiga tomando cappuccino com bolo na confeitaria #gordice #hojepode #saturday. (Ela usa La Vie Est Belle, aposto!) Rola pra baixo, vai ter um passeio de bicicleta daquele seu amigo gente boa, absolutamente "Ridiculously Photogenic Guy" (Ele certamente usa Invictus na ocasião) #bike #friday #t4l. E o post seguinte será ela, a amiga fitness-positividade-gratidão, que pratica ioga, stand up paddle e slackline. Que posta foto de pôr do sol, de meditação em posição de lótus na beira da praia, que faz californiana no cabelo milimetricamente desgrenhado de turbante, que come crepioca com chia e goji berry no café da manhã... #goodvibes #gratitude #positive. Ela usa Olympéa. Sacou?
Longe de uma visão estereotipada, por favor... É, não gosto dessa coisa "perfume de adolescente" para os frutais, ou "perfume de velha" para os atalcados (amo atalcado, respeita faz favor!), perfume disso ou daquilo. Usa o que te faz bem, afinal você pode ser uma vovó fazendo compras no supermercado feliz da vida e exalando seu Fantasy - tô falando da minha mesmo, acredite! 
Então, e mais além de estereótipos, preciso confessar que o Olympéa me reporta a isso, uma moça gatíssima de batinha à beira da praia.
Percebo uma tendência - de uns anos para cá - da adição de sal nas fragrâncias para deixá-las mais orgânicas, a ideia de maresia, suor mesmo. Começou com o mais que polêmico caviar do Womanity, passando para a laranjinha bittersweet do L de Lolita, o caramelo amanteigado do Reveal... os gourmands encontram esse contraponto interessante.
Olympéa é levemente salgado também, mas de corpo mais frutado, aberto e solar. Não entra no conceito gourmand corriqueiro, de confeito, bolo ou caramelo. É de uma face mais gustativa, tem sabores sim, mas nada que chame formigas. Percebo muito o agridoce entre laranja, gengibre e sal, adicionados a algo saboroso, como figos - não o mesmo figo maduro do Womanity, mas o figo ainda fresco, no pé. Reforçando a ideia orgânica, a nota de fundo que mais se destaca é o ambargris, untuoso. Projeção mediana e fixação de 7 horas na versão EDP, nada bombástico. Mas, ainda que não seja bomba, não recomendo a compra sem teste - Olympéa pode não agradar ao longo do drydown.


Imagem: http://www.pacorabanne.com/fragrances/olympea

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Mulheres Perfeitas - Boss Femme de Hugo Boss - Resenha

O gramado do cenário dos Teletubbies. A proteção de tela do já obsoleto Windows XP. O quintal dos Von Trapp. São verdes, frescos e perfeitos, milimetricamente calculados. Sempre ensolarados e luminosos.
Assim é Boss Femme: Luminoso. É bonito, todo 'redondinho', mas é tão perfeitinho, tão perfeitinho que quase dá um certo tédio, e vamozzzzzzzzzzzzzzzzz pera, onde eu tava mesmo?
Brincadeiras à parte, eu sinto cheiro de Boss Femme em Stepford, em seus clubes de leitura, campos de golfe e chás da tarde. Ele não grita, não fala palavrão, não surta e não reclama. Já acorda penteado e maquilado, de saia rodada e kitten heels. Quem consegue ser perfeito assim, ora essa?!?!
 Imagem: www.hugoboss.com

Seu maior risco é não ter notas de fundo clássicas - nem o almíscar-sabonete! - e se sustentar em resina de damasco seco, que beira o docinho-quase-cítrico e madeira de acácia. Não tem açúcar para enjoar, tem rosa fresca, crocante e orvalhada de início da manhã, úmida, geladinha - pois quem dorme em lençóis de cetim não acorda descabelada e amarrotada, acorda assim, fabulosa, disposta... radiante! O frutal é aquele de café da manhã na sacada, com direito a figurino grifado ou robe de seda: frutas vermelhas e sumo de tangerina, poucas calorias e muito glamour. 
Com pouca base untuosa, logicamente sua duração é bem limitada ainda que EDP - passei três horinhas só com ele, e depois só muito de pertinho. Quase uma sessão de spa: você tem a ilusão que é rica, bem nascida e glamourosa, ganhando mimos e massagens, mas quando acaba, lembra que o mundão real é quente, pegajoso e barulhento. 
Pega o Boss Femme, borrifa de novo, e volte ao belo mundo em tons pastéis.



 Imagens: www.fanpop.com


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quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Amor nos tempos de Crise - Pur Blanca da AVON - Resenha

Já estou na fase escapista de não assistir telejornais, não acessar portais de notícia ou acompanhar RSS. Inclusive desinstalei o Flipboard. Cada dia uma notícia pior, econômica e socialmente falando - e para perfumólatras dependentes do valor do dólar fica tudo ainda mais triste. Está perto dos R$ 4,00 (Em agosto do ano passado estava R$ 2,38 - veja só!) e isso desanima tanto a visita aos 'vecinos' quanto arriscar em sites gringos, perigando levar a mordida na Alfândega ou a encomendinha ir parar no lendário e incompreensível limbo de Curitiba e sumir!
Então... nos resta dar uma chance aos nacionais baratex e tentar encontrar alguma joinha. E não é que tem?
No livrinho da Avon do mês de agosto o lindo Pur Blanca estava por R$ 22,00. Sim, vinte e dois pilas - falando no bom dialeto que vigora abaixo de Trópico de Capricórnio. E qual é a graça? Te digo qual: um floral-soapy-limpinho, curinga de todas as horas que dura quase o dia inteiro - quer mais? Ok, pra melhorar vem um 'baita' frascão pra borrifar com alegria e sem economia. 
Pur Blanca - a partir de agora PB - é bonito, é cristalino, e geral fala que ele é dupe do Omnia Crystalline da Bvlgari. Na minha opinião lembra, mas não chega a ser dupe, porque Omnia tem mais fruta e verde, e PB tem mais flores e madeira. O que é inegável é a pegada "roupa lavada e estendida ao sol", cheiro de gente limpa, banho tomado, pele hidratada e assim vai. A fórmula que não dá errado, e que desde o Glow da J.Lo até o Jaïpur Le Bracelet da Boucheron funciona. 
Vai do tailleur ao pijama, e pras mega diluídas deo-colônias nacionais que fogem da tributação a todo custo, tem duração respeitável: boas 5 horas. Projeção baixa, rente à pele e intimista, perfeito para o office scent. 
Filha, então economiza dois dias do almoço no quilo, leva marmita pra firma e junta vintão pro Pur Blanca - sambando na cara das inimigas e jurando que está exalando um gringo chiquetoso. Vai que cola?



segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Parfumée sumiu?


Ah, como tenho resenhas alinhavadas e 'guardadinhas'... Apenas peço desculpas por não conseguir postar o quanto gostaria! Estou em fase de finalização de um grande projeto (pessoal e acadêmico) e está bem difícil conciliar tantas coisas. E como só posto resenhas muito bem feitinhas, que tenham inspiração genuína, prefiro esperar um pouco a escrever somente para cumprir tabela.
Mas... Na lista de novidades tem muito palpite sobre nacionais, grifados, nichos e celebs, tem o lançamento do Fragrance Consulting Parfumée, tem layout novo do blog e muita coisa boa. Só preciso passar por essa turbulência toda, ok? Aguarde e confira!

Beijos perfumados!

domingo, 28 de junho de 2015

I really need you tonight - Tabu de Dana - Resenha

Minha história começa em uma farmácia de rodoviária, porque pra ser bem cafona a coisa tem que começar assim, com uma ironia triste de despedida e um quê inusitado. Não consegui achar voo a tempo, e lá fui encarar um ônibus - porque um compromisso importantíssimo não poderia esperar. Estava super contrariada, muito mesmo.
Precisava passar o tempo, e rodoviárias são locais não muito agradáveis, são mais para hostis por assim dizer, e lembrei que para não sofrer com as náuseas e garantir que a viagem logo passaria, comprei um antiemético do tipo "mata leão". Fui na farmácia, e eis que na pequena vitrine ao lado vejo a maior vedete das penteadeiras modestas desse Brasilzão, em uma caixinha judiada ao lado de uma brilhantina (sim, brilhantina!) e de um talco Alma de Flores, uma resplandescente deocolônia Tabu. Sua caixa é quase um engodo, inocentes flores róseas. O frasco tem até um certo charme. Guardei com todo cuidado do mundo, porque se aquela bomba derramasse dentro da bolsa, teria que jogar fora a bolsa e provavelmente continuar minha viagem dependendo de carona na beira da estrada. Muito possivelmente.
Chegando ao destino fui provar, com toda cautela que Tabu - ainda que na diluidíssima versão deocolônia - exige. Às gotas, com a ponta dos dedos, umedeci o pulso. E esperei.
Como esperavam-se os telefonemas antes da era WhatsApp, Tabu evolui, vai da pura expectativa ao total desespero, das flores murchando ao lado da porta, do jantar temperado esfriando na mesa, e do cinzeiro amontoado de restos de cigarros amassados sobre cinzas ainda fumegantes - e do amor que não vem. 
Sinto um cítrico pungente de início, com narcisos, que o tornam agressivo: pancada mesmo! Ylang-ylang animálico e devorador (imagino como deveria ser a versão EDP vintage, que além desse ylang-ylang ainda tinha civeta natural - escandaloso e selvagem ao extremo), no coração um ar enfumaçado que beira o sufocante, fumaça de tabaco com algo incensado - talvez o benjoim potencialize isso tudo. As notas de fundo são um tanto conflitivas, não dá para saber o que é o quê, algo amadeirado com toques de mel. 
Tabu tem o nome mais exato que se poderia imaginar - tanto para a época quando foi lançado quanto agora. A proposta inicial, no começo de um século XX que fica cada vez mais longe, era para ser um perfume erótico, "aroma de alcova" como já mencionei aqui. Ganhou aquela fama que se espalhou à boca pequena: "é perfume de rendez-vous" - tanto que atualmente custa R$ 10,00 em farmácias de rodoviária. E isso que tirou seu encanto. É possível encontrar o Tabu e toda sua fórmula animálica no ponto de ônibus, no baile da terceira idade, na fila da padaria. (A Coty teve que rebolar para contornar algo semelhante que esteve próximo de acontecer e arruinar toda uma marca! Olha aí o mote da exclusividade tão vital à perfumaria)

Imagem: http://www.tabucosmeticos.com.br/nav/produtos/produtos_detalhes.asp?UID=29

Mas Tabu de maneira alguma pode ser considerado um perfume ruim. Para quem gosta do assunto, é uma ótima fonte de estudo, porque tem uma combinação de notas muito complexa. Talvez ele desperte memórias olfativas pavorosas em alguns - sabe aquele parente que não economizava na dose desta bomba? - mas não se pode tirar seu mérito e sua construção. Posso até apostar que se uma marca de nicho lançasse a mesmíssima fórmula em um frasco hypado e com o marketing certo, olha... sei não, viu?
Seu preço e popularidade tiraram seu prestígio, mas nada tira seu impacto. 
Perfume para chorar ouvindo Bonnie Tyler, fazendo pose no espelho - assumidamente cafona, dramático e passional. Uma catarse!


segunda-feira, 15 de junho de 2015

Uma flor de outro mundo - Alien EDP de Thierry Mugler - Resenha

Ano de 2154, a Dra. Grace* cataloga mais um espécime da flora de Pandora, uma flor de aroma pungente, inebriante, capaz de conquistar toda a Terra com seu poder. Imaginemos agora que Thierry Mugler contrabandeou esta flor intrigante, disfarçada de jasmim sambac, e trouxe às escondidas para nosso planeta, transformando-o em perfume.
As referências ao milionário filme Avatar têm sua vez na imaginação de um alienígena ligado à natureza e à vida, e não a uma gélida nave prateada, uma flor intensa como nunca antes se sentiu. Como nas outras criações TM, tais quais Angel e Womanity, Alien não tem medo do risco, de fugir à regra de uma tendência. Angel revolucionou o mundo açucarado, Womanity trouxe sal e sujeira ao mundo frutal, e Alien se aventura em um floral uníssono, que aproveita a própria doçura da flor para ser atraente.

 Imagem: www.muglerusa.com

Alien tem um quê viscoso, o néctar do jasmim entre o pedúnculo e a flor, que gruda nos dedos - levemente doce, mas profundo e fértil, pois esta é a intenção da flor à planta, fertilização, atração de insetos que levem seu pólen à maior distância possível.
É assim que essa criação de Mugler funciona, atrai pela sua beleza autêntica, o adocicado de sua própria estrutura, que não precisa pegar açúcar emprestado. É mágico, diferente de qualquer outra leitura floral.
Duração e projeção: uma única borrifada - leve - no antebraço, e, 11 horas depois me perguntaram "Que perfume bom é esse que alguém está usando?" Deu pra ter uma ideia?

 Imagem: www.muglerusa.com

* Personagem da musa da ficção científica, Sigourney Weaver em Avatar.



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segunda-feira, 1 de junho de 2015

It's up to you!!! - 5th Avenue EDP Elizabeth Arden - Resenha

A Lily mencionou esse lindo há alguns dias, e fiquei com cisma para resenhar: como esqueço essa beleza na estante? Mas dessa vez, tem trilha sonora... Coloque seu fraque e cartola, passa um gel no cabelo, capricha nos sapatos de verniz e vem dançar ao estilo Frankie! Solta o som MyBoy:



Start spreading the news...
Espalhe a boa notícia com lilases em profusão, e a mais americana de todas as magnólias - que apesar de símbolo sulista, enfeitam as banquinhas de flores da Big Apple. É a primeira mensagem do 5th Avenue: feminino como uma típica tarde de 'gossip'n shop'! 

I want to be a part of it...
Eu quero, eu quero... então tem cítrico e beleza... tem fruta saborosa! Pêssego em compota de calda grossa, temperada de noz-moscada e cravo (da índia, nada de cravo em flor) como só Beth sabe fazer - lembra do Provocative Woman? Isso mesmo!

I want to wake up in the city that never sleeps...
E se você quiser, atravessa o dia com ele e vai até a noite - 5th Avenue nunca para! Tem fixação da boa, porque lá no fundinho tem uma baunilha morna e aconchegante, com uma tintura azedinha - será que são os trevos que constam da fórmula original? Portanto, 7 horas de alegria - quase o expediente inteiro! Projeção bem rente à pele, para que não perca sua qualidade de office scent para aquelas que nunca param... 

If I can make it there, I'll make it anywhere
E vai fazer sim, em qualquer lugar! É fino, bem educado, limpo e assabonetado como só o "north american way" trabalha o almíscar, de cheirinho de roupa recém saída da lavanderia, espuma de banho refinada. Portanto, vai para o trabalho, para a festa, para o happy hour, para o chá de bebê da amiga - sempre rendendo elogios e muita classe - se joga!

Imagem: www.elizabetharden.com

Frasco lindo, elegante. Preço digno - Beth, você consegue me deixar feliz! Não fico sem. Tô na 'querência' de um 5th Avenue NYC - Uma edição limitada mais carregada no pêssego e na baunilha! Mas esse floral classiquinho anos 90 é lindo de viver: limpinho e chic! Se para Donna Karan Nova York são várias interpretações de maçã, para Elizabeth Arden Nova York é muita flor e muito pêssego - e funciona.

It's up to you, New York, New York!!! 


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quarta-feira, 27 de maio de 2015

Três Irmãos e Três Vícios - Resenha Tripla Dior Addict 2014 Edition

Já leu os irmãos Karamazov, de Dostoiévski? Não? Dormiu na primeira página? Entendo... Leitura pesadona, como só a literatura russa sabe ser. Caso não se importe com spoilers lá vai: São três irmãos - Dmitri , irmão somente por parte de pai, Ivan e Aliéksiei, em conflitos, disputas de família e uma tristeza que não tem fim. Mas fica por aqui. Já dos três irmãos Dior, o que posso adiantar é que a linha Addict - que também é linha de maquiagem e beleza - foi completamente reescrita nas propostas de 2014. São três as fragrâncias: Dior Addict Eau de Parfum, Dior Addict Eau de Toilette e Dior Addict Eau Fraiche, que são absolutamente diferentes, distintas, e, assim como os Karamazov, esses irmãos de parecido só têm o sobrenome.

Dior Addict Eau de Parfum
Ele seria o Dmitri, sangue quente... Addict EDP nesta edição de 2014 desagradou muita gente, porque não guardou muita similitude com o Addict EDP de 2002 - cuja legião de fãs é enorme - assim como Dmitri, ele renega seu velho pai, mas ainda conserva algo do genótipo inevitável. Tem canela? Tem! Assim como mandarina, baunilha e jasmim. Mas o que falta para ser igual ao DA EDP 2002? Falta rosa e fava tonka, que deixavam-no mais sensual e encorpado. Na edição 2014 Addict EDP é levemente salgado, em uma cremosidade algo granulosa - a mesma sensação agridoce do caramelo com flor de sal. 

Dior Addict Eau de Toilette
O Ivan do trio Karamazov, o Eau de Toilette é puro, floral, linear. Falei dele rapidamente aqui. Há quem diga que é um flanker do J'Adore que Dior "escorregou" para a linha Addict - realmente a leitura do jasmim é a mesma. Mas aqui não tem aquela cremosidade untuosa das flores brancas do J'Adore, ele tem um cítrico mais aberto e sândalo no corpo, que o tornam mais prático e usável que o tio dourado.



Dior Addict Eau Fraiche
O caçula que virou monge, Aliéksiei, Eau Fraiche é fresco como neve derretendo na primavera, o que o faz um curinga maravilha para o calor. Frésia, frésia e mais frésia. Tangerina miúda e verde, que ainda está no pé esperando amadurecer. Almíscar cristalino. Fórmula que não dá errado, não dá vexame e não dá enxaqueca. Um ventilador voltado para o pescoço, balançando cabelo... e por óbvio, nessa construção leve e vaporosa a duração é um tanto efêmera, mas nada que o desabone. Poderia jurar que tem algo de maçã verde, ainda que leve, em no seu sabor crocante e adstringente.


Cada um na sua linha, esses irmãos são uma proposta certeira da Dior para "rejuvenescer" a marca na perfumaria - além do Miss Dior - e consolidar a fidelidade de um público que facilmente se assustaria com um Diorella.




sexta-feira, 22 de maio de 2015

Eu prefiro ser, essa metamorfose ambulante! - Mesa redonda de Maio

Metamorfose... a transformação, de lagarta à borboleta, de homem para barata (seria mesmo uma barata?) na leitura de Kafka, lenta e gradual conforme Darwin, de homem para mulher como Bruce Jenner, de mulher para homem como Tammy Miranda. Antoine Lavoisier já dizia que, nada se cria, tudo se transforma. Ou mesmo no pensamento do I-Ching: "tudo é mutável, menos a própria mutação, que é constante, e isso demonstra a essência da vida". Mudança, transformação... Um aroma frio e distante que se torna quente... Um aroma sensual e picante que se torna manso. A flor inocente que depois de algumas horas se transforma em madeira em brasa... Quantos não são aqueles que se decepcionam com a mutabilidade de alguns perfumes "na primeira borrifada eu amei, mas passada meia hora se tornou horrível" - esperando uma linearidade diferente da sinfonia de notas proposta pela criação. Seguem alguns daqueles perfumes que, em minhas impressões, se alteram ao longo do tempo sobre a pele, em verdadeira metamorfose ambulante.


A Metamorfose: De Madame Poderosa à Gótica Soturna 
O Perfume: Giorgio Beverly Hills
Primeiramente: para funcionar, não pese a mão, caso contrário, procure o pronto-socorro mais próximo para um oxigênio... é uma borrifada de nuvem, e só. Aí funciona, tão bem como só os florais enoooormes e potentes dos late 80's sabem ser. Aldeído, flor branca - o infalível trio tuberosa, jasmin e gardênia - e rosas coloridas. Glam ao extremo. Mas aí a madame vai dar uma voltinha no cemitério (visitar o túmulo do falecido?) e então se veste de preto, limpa o batom rosa pink e passa um bordeaux bem escuro. Um musgo de carvalho bem fechado, patchouli de terra molhada, algo levemente 'sujo'... Giorgio se transforma! Ao menos dá um tempo razoável nessa transformação, até que a mente e o nariz consigam assimilar essa riqueza olfativa toda!
Imagem: http://www.giorgiobeverlyhills.com/en/giorgio-beverly-hills/



A Metamorfose: De Gelol à Fogueira acesa 
O Perfume: Ange ou Démon Eau de Parfum de Givenchy 
Já falei dele aqui. Mas não tem como, dentre as metamorfoses preferidas, não lembrar desse anjinho safado... De início gelado, à la musa anos 20 como Jean Harlow, sobre a pele ele ganha contornos cálidos, toma de empréstimo alguns graus daquele que o 'veste'. E caminha para o incenso de ritual profano, fogueiras e oferendas. Esquenta com a resinada fava-tonka, com ares enfumaçados. É anjo caído, que se volta aos calores do Hades. 

 Imagem: www.givenchyconversations.com


A Metamorfose: Do mato ao chocolate 
O Perfume: Covet de Sarah Jessica Parker
Covet é o campeão de surpresa: "mas eu achei tão diferente quando passei". Herbáceo, lavanda seca e flores úmidas de brejo - lírio do vale e magnólia. Aí passa para um chocolate azedo, como o cacau em pó puro para culinária, ganhando ainda mais 'azedume' com gotas de limão. O fundo amadeirado almiscarado levemente aquecido, adquire traços andróginos, e faz do Covet uma fragrância praticamente unisex. Não compre sem testar, sem dar "tempo ao tempo", ele tem uma transformação brusca sobre a pele, que pode assustar os mais desavisados!

Imagem: http://www.sarahjessicaparkerbeauty.com/sjpnyc


Participantes da mesa deste mês:

Floral e Amadeirado - Lu Marques
Templo dos Perfumes - Cris Nobre




terça-feira, 12 de maio de 2015

De tudo ao meu amor serei atento - Poême de Lancôme - Resenha

Poême não poderia ter melhor nome... é poema, é soneto - rima e métrica da perfeição. Constante e linear, na melhor doçura de mel e flor, cálido bafejo em carta apaixonada. Se a Lancôme lança-se na atualidade na doçura crocante e amendoada de La Vie Est Belle, no auge dos 1990's a doçura era outra - mel, flores e frutas, clássicas e enamoradas, muito dourado e barroco, o cancioneiro do menestrel. 
Envelheceu? De maneira nenhuma! Deveria haver uma escola para ensinar "Como usar a groselha ao estilo Poême", xaroposa, nada ardida, que não efervesce até à enxaqueca - no lugar dessa groselha teenager/sour que domina o século XXI. Que seja gold passional, de sala rica com cortina de veludo, tapetes persas e poltrona Chesterfield, um rococó refinado de nascença.
A melhor pedida para o frio? Um casaco chic grifado e duas borrifadas de Poême. Aquece e apaixona, como um verdadeiro poema de amor... 
Duração: excelente, passa de oito horas, de maneira bem constante. Projeção digna de EDP dos bons. Está no meu top 10 de novos clássicos. 


Imagem: http://www.lancome.fr

E aí, Vinícius, o que você acha?

"Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure"

Então tá!



Este post contém link do parceiro Glio (www.glio.com)


sexta-feira, 17 de abril de 2015

Uma ópera e um fantasma - Fantasme de Ted Lapidus - Resenha

"Prima donna, brilhante e leve, enche o palco". Estou apaixonada por Fantasme, na verdade não estou, eu sou apaixonada - é paixão de longa data, mais precisamente desde seu lançamento, enfeitando as prateleiras que cobicei na infância. 
A despeito de seu nome, que poderia dar alguma ideia de morbidez, esse fantasma não é assustador, ele é mais para a presença antiga, no teatro iluminado de cor âmbar, que não arrasta correntes, mas apenas move suavemente as cortinas e treme a chama das velas. 
Tem um quê antigo, empoado, de maquiagens e figurinos. Um jasmim perfeito, um corpo floral digno do bouquet para a 'reverence' da artista, que aparece desde o início, passando para um doce de fruta bem madura no segundo ato, e o gran finale fica por conta de uma das melhores interpretações da combinação sândalo + baunilha. Nisso ele cresce, e dura muito, com uma projeção deliciosamente calculada, que a cada movimento reaparece, como um espectro - um fantasma.
Tel Lapidus assina fragrâncias de duração prolongada, basta dar uma fungadinha no Ted Lapidus masculino e no Altamir (tio fino do One Million, menos cafona), e Fantasme não é diferente. E, algo que percebo em comum entre essas fragrâncias, é a forma em que a nota de abacaxi é bem trabalhada, longe daquele estilo que vai para o cítrico, mas sim uma fruta bem madura, bem doce e sem acidez. 
Ótimo para as estações frias que se avizinham.

 Imagem: www.ted-lapidus.com

Se Ted Lapidus se inspirou em "O Fantasma da Ópera" para a criação de Fantasme, acertou em cheio na vibe teatral, passional e feminina... E como costuma ser com as criações da casa: não custa muito caro (em tempos de dólar alto, isso está pesando muito nas escolhas ultimamente!)


quinta-feira, 16 de abril de 2015

Livros e Perfumes – Amor em dose dupla – Mesa Redonda de Abril




“Os livros são objetos transcendentes, nós podemos amá-los o amor táctil”, segundo Caetano Veloso. Amo livros, demais, de Guimarães Rosa a Dostoiévski, de João Ubaldo Ribeiro a Ken Follett. Atualmente estou mais nos livros acadêmicos do que literários, mas isso é só questão de tempo, logo volto às minhas viagens a cenários longínquos, ainda que da poltrona da sala. Perfumes me provocam essa mesma sensação: viagens sem sair do lugar, divagações e impressões. São formas de expressão e de arte.
Como adoro a associação entre perfumes e pessoas, seguem alguns perfumes e algumas personagens do mundo da literatura, que têm a mesma 'linguagem' e me trazem os mesmos sentimentos.


A Personagem: Diadorim (Grande Sertão Veredas – Guimarães Rosa)
O moço quieto e ressabiado, em cujos olhos "o verde mudava sempre, como a água de todos os rios em seus lugares ensombrados. Aquele verde, arenoso, mas tão moço, tinha muita velhice, muita velhice, querendo me contar coisas que a ideia da gente não dá para se entender". A paixão dúbia que desperta no companheiro Riobaldo, seus silêncios, reticências e ciúmes. Sentimento árido e espinhoso como o sertão: “Amor é a gente querendo achar o que é da gente”.

 Eternizada por Bruna Lombardi, a personagem Diadorim. (Imagem: globo.com)

O Perfume: Duel, de Annick Goutal
O próprio nome “duelo” já diz tudo: um embate, entre masculino e feminino, entre mate verde e raízes secas. É áspero, de início, mas sob tantas camadas de couro existe uma delicadeza oculta, e quem a encontra fica maravilhado. Diadorim morre em um duelo, em uma luta corporal digna de sua valentia, é ali que Riobaldo descobriria que sempre teve por companhia, em verdade, Deodorina.
Imagem: www.annickgoutal.com


A Personagem: Capitu (Dom Casmurro – Machado de Assis)
Ah, as heroínas machadianas, seus melindres e caprichos que atormentam aqueles homens que lhes são devotos, e que ao mesmo tempo as odeiam. Capitu e seus “olhos de ressaca, de cigana oblíqua e dissimulada”, a eterna dúvida e distância, criatura mui particular, mais mulher do que Bentinho era homem.
Na juventude, suas mãos “a despeito de alguns ofícios rudes, eram curadas com amor; não cheirava a sabões finos nem águas de toucador, mas com água do poço e sabão comum trazia-as sem mácula”, Qual o perfume de Capitu? A Natura fez uma apimentada homenagem, chamada “Encantos de Capitu”, mas achei adocicada demais, não combinando com seu espírito ousado. 




Capitu, representada por uma impecável Maria Fernanda Cândido (Imagem: globo.com)

O Perfume: Água de Neroli, da Phebo
Por qual razão? Porque a saída cítrica me remete ao quintal verdíssimo dos encontros juvenis de Capitu e Bentinho, que, aos poucos e para quem chega perto, vai se tornando assabonetada, como o sabão que lavava suas mãos. É acessível, porque as origens de Capitu não a permitiriam comprar finos artigos de toucador... E é um sucesso originalmente brasileiro, como Dom Casmurro.

Imagem: www.phebo.com.br


A Personagem: Doutor Jivago (Doutor Jivago – Boris Pasternak)
Não, não vou falar de Lara... Vou falar do próprio médico idealista, que ao final percebe que a sociedade tem tantas mazelas que não vale a pena o convívio, preferindo o exílio. Eternizado no cinema por Omar Sharif, Jivago exercia seu ofício com dedicação, atendendo até os mais pobres, ainda que em noites congelantes. Com um aspecto psicológico interessantíssimo, a abnegação de Yuri Jivago à Tonya, e ao mesmo tempo sua paixão e devoção à Lara, rendem trechos intensos como: tenho ciúmes dos objectos da tua toilette, das gotas de suor na tua pele.





 Omar Sharif, e seu Doutor Jivago (Imagem: theredlist.com)


O Perfume: Dior Homme Parfum
Nada aparecido, mas de alta classe como o doutor. A nota de couro representa sua maleta de profissão, a íris sua origem nobre. É requintado e constante, como o dedicado médico Jivago.

Imagem: www.dior.com/beauty


Outros blogs participantes da Mesa Redonda de Abril:
Floral e Amadeirado (Luciana Marques)
A Louca dos Perfumes (Diana Alcântara)
Odorata (Cris Bazoni)
Parfums et Poesie (Lily Loon)


terça-feira, 31 de março de 2015

Um jardim secreto - Eden de Cacharel - Resenha

Inocente e pecaminoso? Verde-frutal-incensado? Uma viagem lisérgica, folhosa e erótica? Nada disso faz sentido? Éden também não - mas faz!
É uma sinfonia de notas, da fase pré-purista noventista, um dos últimos bombásticos polêmicos ame/odeie. É impossível passar despercebida com Éden, quem o ostenta chama a atenção, como as enormes ombreiras das coleções de moda da época.

Imagem: http://cacharel.com/fr/collections/eden#!/gamme/eden/eau-de-parfum/eau-de-parfums-pack-etui


O último suspiro barroco antes da onda heroína-chic, quando a opulência foi enterrada e tida como cafona. Mas Eden resistiu, e permanece no posto de perfume clássico, e lá se vão vinte anos!
A propaganda, na proposta da nudez inocente que reinava no Jardim Paradisíaco, algo tão proibido que chega a ser puro, divino. A fantasia de um jardim florido, fértil, cheio de frutas maduras e melífluas - em uma evolução cadenciada, que torna impossível a distinção nota a nota: e nem é essa a intenção, o interessante são as sensações simultâneas, a bagunça que atordoa os sentidos.

Imagem:www.fragrantica.gr

Éden me lembra as florestas dos elfos da trilogia o Senhor dos Anéis, tão belas que chegam a assustar, em seu mistério sombrio e cheio de magia. Galadriel usaria Éden, com certeza.

  http://www.imagozone.com

Uma borrifada sob a roupa, em contato com a pele. É o suficiente para esta viagem, que terá duração gigantesca - dez horas em diante, e projeção ampla.

sexta-feira, 13 de março de 2015

Salsa e Meregue - Far Away Gold de Avon - Resenha

Por quê a associação com os ritmos caribenhos? Porque é quente, dourado, bagunçado e festivo, que no fim das contas se torna fantástico. Alguns megatons florais, doçura de côco e baunilha. Um soco de ylag-ylang. Resultado? Um torpor inebriante/adocicado, que fixa e projeta grandemente, e faz a noitada ficar divertida como em um beachclub. 
Imagem: www.perfumariaavon.com.br

Capricha no vestido e no cabelón, uma borrifada do Far Away Gold - diretamente sobre a pele, porque essa joinha exige calor humano - e se joga na pista de dança. Chamativo, como a flor no cabelo em meio aos cachos negros, o calypso da Gilda de Rita Hayworth. 

 
Ele "fala", gesticula, é bem feito e bem arranjado, mais um dos motivos para apreciar as belezinhas da Avon e se manter perfumada em época de dólar nas alturas. No inverno, deve ficar delicioso! UEPAAAAAA

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Romantismo e Perfumes - Mesa Redonda de Fevereiro

Nós brasileiros somos tão criativos, que importamos feriados e datas comemorativas - mas ao invés de substituição, rola dupla comemoração! O Dia de São Valentim aos poucos se incorpora no nosso calendário, e, nessa inspiração romântica foi proposto o tema da mesa redonda do mês... Vamos então falar de perfumes, romantismo, olhares trocados e coração acelerado!

Amor Adolescente - Amor, Amor de Cacharel
Ah, aquele amor que em uma semana é arrebatador, rende suspiros, lágrimas e mensagens na madrugada, e já na outra semana mudou para o mocinho bonito da sala de aula ao lado. Normal, hormônios de mais, neurônios de menos - quem nunca? Para esse amor, o vermelhinho azedo-doce da Cacharel é estupendo: teen, inconstante, com seus altos e baixos de cítricos, frutas vermelhas e docinho de balinhas. "É o amor da minha vida", até o mês seguinte!
Imagem: www.cacharel.com



Amor de Namoro - Romance de Ralph Lauren
Manso e calmo como ronron de gato, esse amor de namoro, filme e cafuné é fase boa. Ainda não se aborrece com contas a pagar, cabelo emaranhado pela manhã, encrenca com diarista e jardineiro... Tem a polidez da porta do carro aberta, dos programas e viagens inesperadas e lençóis perfumados com capricho. Esse cheirinho limpo, confortável mistura de almíscar, lírio e frésia é a essência do Romance de Ralph Lauren.
Imagem: www.ralphlauren.com



Amor Casadoiro - Marry Me! de Lanvin
Joelhos no chão, aliança de brilhantes na mão, ao som de violinos à luz do luar... Olhos marejados, a cara de surpresa: sim, aceito! Cenário imaginado? Ok! Então no ar paira um aroma cítrico, das laranjeiras floridas, como símbolo do mês das noivas. Um bouquet de rosas e magnólias acompanha a noiva, para disputa das amigas e madrinhas, e as notas de fundo lembram a madeira da mobília nova dos recém-casados. Sugestão para noivinhas sonhadoras.  
Imagem: www.lanvin.com



Amor de Novela - Dolce Vita de Christian Dior
Na casa cheia de porta-retratos e lembranças, um aroma doce e especiado vem da cozinha - seria uma compota caprichada? Da sala, o arranjo de flores frescas chama para um chá quente com sobremesa de coco ou um arroz doce com canela. Tudo está no seu devido lugar, mas para isso acontecer, levou um tempo, de brigas passionais e algumas arestas aparadas. Valeu a pena: como todo casal que já completou suas bodas, Dolce Vita tem drama, doçura e paixão.
Imagem: www.dior.com



Amor de Velhinhos - Perles de Lalique
Depois de muitas dores e alegrias, poder apreciar a companhia de quem te entende só pelo olhar, compartilhar o espaço, o silêncio e a intimidade. Quando já se sente a presença de um aroma canforado dos necessários unguentos e pomadas, os talcos perfumados e a bruma de um tempo que já se foi. Esses amores têm a pureza das pérolas: das dificuldades e grãos de areia, podem resultar as mais belas joias. 
Imagem: www.laliqueparfums.com


Outros devaneios românticos e perfumados aqui:
Templo dos Perfumes - Cris Nobre
Perfume Bighouse - Beth Casagrande 
Floral e Amadeirado - Luciana Marques 

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Silly things - Prada Candy EDP - Resenha

Quando penso em um perfume meio bobinho, não tem como deixar o Prada Candy de fora. Bobo alegre? Pode ser, alegre é mesmo, é doooce (ah, vá dizer... sério?), tem pegada pop, tem frasco fofo e bem desenhado. Mas só! 
Só? Sim, só. Previsível. É isso, caramelo e benjoim. Se estiver calor, o caramelo perde o charme do 'queimadinho', e parece que passa do ponto, como cheiro de calda de pudim que queima e gruda na colher, no fundo da panela - em tudo!
O lado bom é que a projeção é comedida, passados os dez minutos iniciais, e a duração de boas 6/7 horas, ainda que rente à pele. Não é a Formiga-Atômica, o doce mais doce que doce de batata doce, que dá um soco em todos os transeuntes com quem cruza - bobo alegre, porém educado.
Caso sua glicemia exija esse docinho, seja feliz! Mas criativo, ó, não vou poder afirmar que seja! Açucarado, festeiro e caramelado? Hummmm, acho que vou de Aquolina e suas variações Sugar. Prada Candy dispensei!
Gostou do Prada Candy? Conta aqui!!!

Imagem: www.prada.com



Este post contém link do parceiro Glio (www.glio.com)

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Receita de Bolo - Eau des Missions de Le Couvent des Minimes - Resenha

Uma vez, na cozinha fazendo madalenas, eu derramei baunilha Dr. Oetker no braço (tá, no braço, no cabelo e na pia inteira) e pensei: "por que não fazem um perfume de baunilha, e só baunilha? Seria um sucesso". Pois a Le Couvent des Minimes teve essa ideia - e deu certo!
Mas vamos a todo o conjunto dessa ideia: frascos que vão de 30 a 500 ml, apresentação com carinha artesanal, um apelo de conforto e bem estar, quase medicinal e, no meu caso, a palavra 'missions' - que tem a ver com a minha tese, mas não pretendo falar disso aqui, porque né, ninguém merece! hahaha
Faça assim: tome um banho, borrife Eau des Missions no corpitcho, e sinta-se um bolinho da vovó, recém saído do forno. Pronto, uma auto-indulgência terapêutica que resolve qualquer chateação!
Eau des Missions é a uma baunilha alcoólica, doce como calda de pudim ainda quente, ou para ser mais exata ainda fervendo na panela. Segundo a marca, consiste na combinação de Baunilha, Centelha Asiática, Mirra, Benjoim e Chá Verde, em uma fórmula revigorante e reconfortante. Baunilha e Benjoim predominam, acredito que as ervas dão a sensação mais transparente, de um caramelado vítreo, e não cremoso, realmente alcóolico. Isso que torna essa água de colônia tão especial, um prazer adulto, um cochilo de pijamas no meio da tarde.

 Imagem: http://br.lecouventdesminimes.com/água-de-colônia-eau-des-missions

Lógico que depois de comprar a de 30ml, encomendei uma de 250ml, e completei o trio da Le Couvent des Minimes. Para quem mora aqui na 'jungle', tem na Diana da Marechal Floriano, mas as vendas online também funcionam certinho - já testei.

NOTA - Esse não é um publipost, as informações aqui passadas baseiam-se em experiências pessoais de compra.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Maçã do Amor - La Tentation de Nina - Nina Ricci - Resenha

Já falei de Maria Antonieta nesse post... Mas quando senti o La Tentation de Nina, não resisti à referência, da Maria Antonieta pop e coquete vivida por Kirsten Dunst. Por que será? 
Nas cenas do filme, entre sedas e brocados, vestidos e sapatos, jogatina e penteados, surgiam confeitos lindos, super coloridos. Dessas guloseimas, diz-se que os macarons eram um pedido da dauphine ao confeiteiro de Versailles, para matar a saudade dos biscotinhos de amêndoa que saboreava durante sua infância na Áustria. 


La Tentation de Nina consegue captar o cheirinho do macaron (em uma estrelada parceria com a patisserie Ladurée), de forma muito fiel - um viva para a novidade no mundo gourmand, que agora pode sair do trio baunilha-chocolate-cupcake!
As notas de entrada são cítrico-açucaradas, na mesma vibe do Moschino Cheap and Chic I Love Love e Dolce Gabbana Light Blue, o que dá uma ponta de esperança de usar um docinho, ainda que no verão. Segue em frutas vermelhas, framboesa e tintura de rosa, levemente sour, para terminar na amêndoa em pó - matéria prima do mimoso macaron. O fechar das cortinas é a mistura dessa amêndoa com o almíscar limpinho, o que faz o LTDN bem comportado. 
Perfume fofo, para tomar sorvete com as amigas à tarde, passear no shopping e usar vestido em tom pastel... Não que seja bobo, simplesmente tem dias que você não está naquele mood Ange ou Démon ou Midnight Poison, exercitando toda sedução. Aí fica o paradoxo, o nome é tentador sim, só que no sentido gustativo e não de sensualidade propriamente dita - mais uma das delicinhas de limão, açúcar e "todas as coisas boas do mundo" de Oliver Cresp. So cute!

 Imagem: www.ninaricci.com