segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Mesa Redonda: O Perfume do Egito Antigo

Como professora de História do Direito, o tema da ‘mesa redonda’ deste mês me instigou: Perfumes do Egito Antigo. Eu não estava lá para saber, mas quando imagino aquela paisagem desértica, dependente das secas e cheias ao capricho do rio Nilo, tentei imaginar os aromas que pairavam por aquela que foi uma das primeiras civilizações. As fontes históricas são unânimes: os egípcios se perfumavam, e muito! Mas tentei pensar mais no cheiro como um todo, não somente das pessoas, o aroma do lugar (como o da minha cidade tem um cheiro incrível de mato fresco!).

O Aroma Natural: Entre muita areia, surge o rio Nilo, trazendo argila e detritos, espalhando-os às margens. Aquele solo mole, pantanoso, deveria ter cheiro de umidade, de musgo, de plantas aquáticas - papiros e taboas. Plantações de cevada, gramíneas e mato rasteiro. Ao longe, somente areia e pedras, aridez de deserto, sol ardente. Meu olfato viaja nesse contraste entre seco e úmido, fértil e árido. 

O Aroma das Casas: O rio Nilo era generoso, mas não tanto. A alimentação não era muito variada, e contava com poucos gêneros, sobressaindo-se dois: a cevada e a cebola. A cevada era aproveitada de várias formas, como pão, mingau e até a popular cerveja. A cebolas, bom, acredito que as cebolas não seriam um ingrediente lá tão versátil, associo sempre como coadjuvante do prato. Um pouco de vinho, tâmaras e figos – aquele aroma frutal escuro, denso. E para adoçar a vida, contentavam-se com leite e mel, que acompanhavam as provisões reservadas à posteridade – o mel era a iguaria mais encontrada nas urnas mortuárias. Imagino as casas com esse aroma maltado, fermentado, misturado com frutas secas e mel. Curioso e apetitoso.

O Aroma Ritual: O ritual de mumificação permitiu muitas descobertas sobre o Antigo Egito, muito mais que outras civilizações posteriores. A preocupação com o pós-morte, pela preservação do corpo para abrigar novamente a alma, era o traço marcante da religião egípcia. O ritual não deveria ser a cena mais encantadora de se acompanhar, mas vamos imaginar toda a alquimia envolvida: natrão, serragem, resinas, tiras de linho e essências. Camadas e camadas de mistérios, que envolviam um diálogo entre o visível e o invisível. Um cheiro medicinal, pungente, entre o perfume e o remédio, a limpeza e a repulsa. 


O Aroma Sagrado: O faraó era a divindade na Terra. Seu cotidiano era ritualizado, cercado de sacerdotes e escribas. Nos ritos do templo e no palácio, provavelmente predominavam os nobres aromas do incenso, gálbano, mirra, cedro e benjoim. Para os escribas, o aroma do papiro, aquático, folhoso, e das tintas e pigmentos para a escrita que seria consultada e desvendada mais de um milênio depois. Um caminho invisível e perfumado, entre a eternidade e o momento. 

Mas... o desafio verdadeiro é: qual seria o perfume encontrado entre as relíquias das pirâmides? Vejamos: precisa ter incenso, mel, papiro, resina. Também precisa de luxo, riqueza, exclusividade - afinal, apenas os nobres tinham por morada eterna uma pirâmide. Pensa, pensa, e... não consigo associar com outro que não o Incense Oud da Kilian - nobre, incensado, misterioso. Sem estereótipo de masculino ou feminino, apenas um aroma que parece atravessar milênios!


Imagem: www.punmiris.com


E você? Me conte agora: na sua imaginação, qual o perfume do Antigo Egito?


Palpites de outros blogs, aqui:

A louca dos perfumes:http://aloucadosperfumes.com/
Le Monde est Beau: http://lemondeest.blogspot.com.br
Odorata: http://odorataparfuns.blogspot.com.br
Parfums et Poesie: http://parfumsetpoesie.blogspot.com.br
Perfume Bighouse: www.perfumebighouse.com
Pimenta Vanilla: http://pimentavanilla.blogspot.com.br/
Templo dos Perfumes: http://templodosperfumes.blogspot.com.br
Van Mulherzinha: www.vanmulherzinha.com
Village Beaute: http://villagebeaute.blogspot.com.br

11 comentários:

  1. Pude viajar em tuas palavras, Priscila, e sentir estes aromas que rescendiam daquelas sofridas terras... vambora prá lá?

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    1. Faz as malas que eu te busco, Dâmaris!!! Simbora pro Egito!

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  2. Priscila, li devagar pra poder ir imaginando cada cheiro descrito em tuas palavras! Que incrível ficou teu texto, eu consegui visualizar a margem do Nilo e sua fertilidade caprichosa, suas margens lodosas; a casa de um cidadão médio, o rito da mumificação (esse visto por uma fresta de porta, não é permitido a qualquer um acompanhar tal momento); o toucador do representante divino! Parabéns!

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    1. Gostou Diana? É que eu sempre começo meus semestres falando do Egito Antigo, do cotidiano, dos faraós, seus rituais (acho que meus alunos rezam para eu parar de tagarelar tanto!) e fico apaixonada, viajando em pensamento àquela terra distante, em tempo e espaço, suas cores e perfumes. E realmente não consegui pensar em mais nada, que não fosse o Incense Oud! Beijos e mais beijos!

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  3. Pri!! Que diferente! Eu aqui estou encantada com os textos de vocês que li até o momento e aqui novamente me deparo com um texto apaixonado. O tema em si desperta isso, não?
    Adorei o detalhamento com que você descreveu inúmeros aromas e esse, de falar sobre o aroma do local, de uma cidade, sempre me ronda. Tenho até dois posts sobre isso, um em andamento. Sim, cidades podem ser perfumadas!
    "Vinho, tâmaras e figos". Só sabores e aromas requintados, adoro! Você ainda falou em leite e mel e toda vez que eu leio algum livro sobre o Egito, aparecem as iguarias que eram servidas aos nobres para um lanche da tarde: frutas secas, leite, mel, vinho e pasteizinhos, além da carne de caça fria. Fico imaginando esse mini banquete apetitoso kkkkk.
    O texto está maravilhoso, adorei a dedicação ao tema.
    Bjus
    Li

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    1. Gostou do texto, Lily? Fiquei com medo de ter "fugido" ao tema, mas quando preparo minhas aulas, tento viajar ao lugar, imaginar as pessoas vivendo tudo aquilo que só conhecemos por achados arqueológicos...
      O Egito tinha simplicidade e requinte, sabores, cores... Vamos fazer um banquete temático? Também fiquei tentada por esse lanche saboroso!
      Beijos e mais beijos, Lily! Venha me visitar sempre!

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    2. Oi, Pri. Com certeza venho, é um prazer lê-la.
      bjs

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  4. E quem disse que "dinheiro não traz felicidade"?
    Imagina só como não deve ter sido maravilhoso ser Faraó naquela época?

    Belo texto!

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    1. Ser faraó, usar tantos perfumes, enfeites e maquiagens... Ai que loucura!!! hahaha
      Dinheiro pode não comprar felicidade, mas compra perfumes, que é a mesma coisa, né Cassiano? beijos

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  5. Que rico seu texto! Pensou até no aroma das casas... que legal!
    E os incensos novamente... as resinas...
    Sabe que aqui em Porto Seguro os índios usam uma resina muito fragrante em seu ritual?!

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    1. Amo a cultura indígena, Cris! Quanta riqueza incompreendida e inexplorada... Os guarani aqui do sul fazem uma água perfumada de chicória muito refrescante, que aprenderam com o missionários Jesuítas (isso ainda será matéria de um post, com certeza!) Beijos

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