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Starways to heaven - Montana Parfum de Peau - EDP e EDT - Resenhas

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Claude Montana foi um dos estilistas que criaram as epítomes oitentistas da moda escultural. Assim como Hervé Léger, Azzedine Alaïa e Thierry Mugler, eles transformaram as mulheres cobertas de jérseis e cetins da era Disco em esculturas pontiagudas de tafetás ou comprimiram-nas nos vestidos-bandagem que lhes evidenciavam cada milímetro das formas. Geometria, cores, arestas. O choque visual ao gosto yuppie, que cinzelou topetes às alturas e ombreiras gigantescas. Exageros bem pensados para demonstrar a ostentação de quem atingiu seu primeiro milhão de dólares antes dos 30. Que, metaforicamente chegou ao último degrau, quem subiu na vida, quem ocupava as penthouses em que se davam festas inenarráveis. No alto, no topo. Essas duas fragrâncias, cada uma a seu modo, mas com a mesma alma, são escadas espiraladas e esculturais, cheias de incenso e mel.  Na versão EDP, em seu frasco azul escuro e misterioso, o mel é mais grosso e presente. As fumaças resinadas estão próximas à pele, bem pers…

O ano do Dragão - Le Basier du Dragon de Cartier EDP - Resenha

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O Dragão é uma figura mitológica reverenciadíssima na China. Representa a bondade, a generosidade, a abundância e a cortesia. Ao Dragão reservam-se rituais, incensos e agrados, costume este considerado curioso quando das incursões coloniais inglesas na Ásia. Le Basier du Dragon não é necessariamente um artefato autêntico chinês, está mais para uma peça de chinoiserie, que seleciona os elementos do extremo oriente segundo seu gosto e o transforma em figuras fantásticas e extravagantes conforme um imaginário tipicamente europeu. Como os biombos, estamparias e caixinhas de laca, que repousavam em bibliotecas e vestíbulos das mansões enriquecidas da Era Vitoriana - cujos proprietários provavelmente obtinham enormes lucros com o comércio oriental do chá.  Sua abertura é medicinal, amarga e alcoólica como os preparados fortificantes receitados pelos médicos experimentados, que cuidavam da saúde dos aristocratas. Tem amêndoa crua, gardênias narcóticas e um bitter de licor. Ganha ares enfuma…

The fuel for fury - Diesel Fuel for Life Femme EDP - Resenha

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Ah, esse meu chypre 'jaqueta jeans'... Apimentado e encorpado, que dá uma dose de ousadia corajosa, um quê boyish que adoro adicionar ao meu visual pixie quando bate um atrevimento. É um sexy meio arredio, e simultaneamente seguro, cheio de si. Meio a cara da Imperatriz Furiosa de Mad Max Estrada da Fúria, que mesmo em meio a toda escuridão de uma camada de graxa e poeira brilham olhos cristalinos, sendo bonito por ser arisco. Não é aquele chypre madame "Eau de Soir", é chypre que beira o unissex, com madeira e noz-moscada que fazem um duelo quente/frio com o patchouli e vetiver bem raiz, em sua face mais fresh. Fixa e projeta como poucos, coisa 8h, que volta e meia reaparece em flashes perfumados.



Subo no meu palco, minha alma cheira talco - Narciso Poudrée EDP - Narciso Rodriguez - Resenha

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Sou professora, esse é meu primeiro ofício, o maior de todos. Tem uma alma de jurista, tem uma faceta de perfumista, mas antes de mais nada sou professora. Raras foram as vezes que usei quadro branco, flip chart, e tenho pavor de apresentações em Power Point. Sou old school, ou como meu para sempre mentor e orientador me disse: "seu negócio é 'cuspe e giz'". Amo a lousa, encho o quadro, e ao final da aula lá está ele, cheio de rabiscos, setas e sublinhados, uma obra digna de Kandinsky. Minhas mãos estarão brancas, ombros e cabelos cheios da fina poeira, a roupa foi ganhando uma estampa personalizada ao longo da exposição. É o momento de um pequeno show, de atrair a atenção das jovens mentes inquietas, de competir uma luta desleal contra seus smartphones. É um palco, hora de passar o conteúdo preparado antes, por horas a fio, entre leituras, anotações e pesquisas. Como um roteiro escrito para uma peça, um teatro que leva a intangível teoria para a familiaridade da pr…

O último dos românticos - Floratta Red d'O Boticário - Resenha

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As estações do ano são sempre as bússolas das marcas para orientar suas criações. Quando vem a primavera multiplicam-se os florais, os flankers levinhos – l’eau, thé, legère e afins. No verão frutais tropicais e brilhantes, limões aos quilos, maracujás e bebidas geladas. No inverno tudo fica intenso, pesado, denso. Elixires, parfums e extraits carregados de especiarias, fumaças e incensos. Agora o outono, ah, o suave outono. As frutas maduras e a melancolia romântica, suspiros apaixonados dignos de John Keats – o último dos românticos – como bem traduz em sua maravilhosa Ode ao Outono:
“Estação de neblinas, doce e fecunda! Companheira íntima do sol, com ele vais, Quando ele abençoa e inunda De frutos as videiras junto dos beirais”
Quem espera do próximo Floratta Red um bouquet floral, antecipo que não é isso que irá encontrar. Testando pela amostra (beijos Maiarinha!!!) a abertura é mais para verde frutada do que necessariamente floral, um toque de folhas, groselhas, maçã (aquela mais miúd…

O Elixir da Longa Vida - Essencial Elixir Deo Parfum Natura - Resenha

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Acredito que, atendendo a pedidos, a Natura espertamente o retornou. Na carona da reviravolta chypre que ela tanto domina, depois de anos gourmands, esta experiência iniciada com uma edição limitada volta aos catálogos - ainda não se sabe se por prazo determinado ou não.  Para construir o bom chypre a receita demanda unir com a maestria de alquimista as cítricas bergamotas, delicadas rosas e jasmins, terroso patchouli em generosas doses, musgo de carvalho e lábdano. A receita atualizada admite musk e evernyl, trazendo ares mais limpos e arejados à umidade da floresta.  Elixir é o termo alquímico para a poção balsâmica e confortante de efeito mágico, que atribui juventude, cura e longa vida. A busca incessante de Avicenas, a dosagem meticulosa entre veneno e remédio, a transmutação, a pedra filosofal e suas propriedades mágicas.  Essência e Elixir podem ser sinônimas, palavras irmãs, que denotam uma natureza íntima das coisas, aquilo que é vital e imprescindível. A manifestação fundam…

Delicada delícia - Oriental Zara EDT - Resenha

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Na onda do "vale o quanto pesa", a Zara vem conquistando fieis súditos com suas fragrâncias bem elaboradas, com preço justo. Oriental é um bouquet floral delicado, respingado por gotas de bergamota madura, emergido em calda de caramelo, um caramelo cremoso e abaunilhado, adicionado de uma pitadinha enfumaçada leve e sutil.  Quando falamos de orientais, pensamos em verdadeiras bombas arrasa-quarteirão - vide Opium, Shalimar, Samsara e todos os condimentados balsâmicos aos quais nossos narizes estão habituados. Aqui o tom oriental é mais na inspiração, nos vapores mornos e adocicados, na madeira resinosa de fundo. Não tem toneladas de especiarias, devaneios de cardamomo, cravo, nardo ou canela. São favas de baunilha fervidas, que acolhem rosas, jasmins e patchouli vívido, uma calda em fogo brando antes do ponto de bala.  Tem conforto de fragrância adocicada, mas como se define atualmente, é "doce adulto", feminilidade de mulher segura e feliz consigo mesma. Algo me …