segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Paixão Art Déco - LouLou de Cacharel Eau de Parfum - Resenha

Um trintão cheio de pose e respeito. Criação Cacharel que se preza, ame ou odeie, no mesmo caminho difícil de Eden. A sobreposição de camadas e mais camadas, um contraste entre notas brilhantes e estridentes e acordes escuros e misteriosos. Uma ode aos anos loucos e ao excesso. 
LouLou é de 1987, então tava no contexto da ombreira, do dourado e do visual carregado de informação. A proposta inicial seria uma homenagem à Louise Brooks, musa do cinema mudo que na vida real soltava o verbo e incomodava geral. Artista de alma, sem amarras e resistente aos estereótipos, sua morte ocorreu apenas dois anos antes do lançamento de LouLou - seria esta uma homenagem póstuma de Cacharel?
O que passa é: sim, LouLou é uma homenagem, é um perfumão. Um gosto de se dosar às borrifadas. 
Abre em flores grandes, potentes, violeta com cara de maquiagem e algo meio plástico, sintético - a famosa nota de "boneca nova" que muita gente tenta definir. Sua face seguinte conta com muita tuberosa, dama da noite, floral intoxicante e profuso, espiralado. Ao descer, lá pela terceira ou quarta hora - sim, estamos falando de horas! - ganha cremosidade e doçura balsâmica de heliotrópio e adocicado ylang-ylang, sexy, muito sexy. Da quinta hora em diante ganha contornos incensados e picantes, de canela em casca e sândalo - aquele sândalo das bolinhas aromatizadoras que eram vendidas antigamente. A partir daí ganha linearidade, mas ainda assim permanece em uma sinfonia de flores, vapores e tons intrigantes sintéticos "sabe-se lá o quê". 
É perfume de passar só na nuca ou nas costas, ou a famosa borrifada em nuvem. Não sou da patrulha do clima, use o que quiser quando quiser, mas no calor é capaz até que a própria pessoa não o aguente até o fim do dia. É meio malicioso, leva tempo a se acostumar, tem uma manha de Daisy Fay - a complicada paixão de Jay Gatsby. 
Quem usa (ou conhece alguém que usa) LouLou sabe que é perfume-assinatura, aquele que deixa tudo que a pessoa toca com um pouquinho do seu rastro. É uma obra de arte (déco?) em um pequenino frasco azul-turquesa e vermelho, que projeta e fixa como poucos. 



terça-feira, 28 de agosto de 2018

Honey honey, touch me baby! - Prélude S Deocolônia Eudora - Resenha

Honey honey, how you thrill me, ah, honey honey

A música é do ABBA. Sim, do ABBA, me julgue! Relutei em usar essa referência do cafona-kitsch, mas eu confesso que curtir ABBA é um dos meus guilty pleasures - quem nunca? Então, ao invés de me render ao apelo marketeiro da Eudora, em querer empurrar o Prélude S como uma fragrância sensual, eu vou mais para essa coisa divertida da musiquinha 70's que fala de conquista, de beijinhos e de docinhos do que qualquer coisa voltada às lingeries e lençóis de cetim. Porque é, oras!
A marca o classifica como "Oriental Gourmand", com notas lactônicas, mel e amadeirado/musk. É isso? É. Mas não é. Complicado hein...
Na primeira borrifada - boom! Mel, puro mel, vítreo, viscoso, doce. Lembra das balinhas Kid's de mel? Tá aí.


Lembra dessa balinha malandra? A Eudora engarrafou no Prélude S.

Bala de mel. Transparente e cristalino. Não tem cremosidade de leite, adição de especiarias. É mel. Pelo menos para mim. É extremamente linear, começa e termina em mel, daqueles dos mini-pacotinhos que se juntavam em fitas - isso também deve ser lá dos tempos do ABBA!
 É sexy? Sim, daquela maneira mais sapeca, que é docinho, mexe com o paladar. Fora daquele sexy arrasa-quarteirão. É super feminino, e, por mais que tenha corpo e alma gourmand, é extremamente confortável. Talvez até mesmo por ser linear, sem surpresas. O mel de favo, sem aquela coisa meio balsâmica de própolis, resina, xarope... que não é tão fácil de agradar.
Faz a linha Pink Sugar, de ser uma expressão gustativa em forma de perfume, esperto na sua simplicidade e alegria. Combina com climas amenos, mas não chega a desandar no calor, só tem que dosar as borrifadas.
Fixa muito bem - para deocolônia então, nem se fala - coisa de oito horas mesmo! Projeta nas primeiras duas, três horas, mas depois repousa como uma aura doce perfumada.


Honey honey, hold me baby, ah, honey honey!





Imagem: loja.eudora.com.br

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Oh, Popeye... Me salve!!! - Cheap and Chic de Moschino EDT - Resenha

Alô alô amigas do floral e simpatizantes dos acordes amadeirados, venham conhecer essa fragrância que não está no gibi! Uma bela anedota na hora certa, que arranca risadinhas e piscadelas, mas também sabe ser esperta e decidida quando precisa. Cheap and Chic, em sua ironia do DNA Moschino celebra uma ousadia jovem e bem posicionada, de cores vibrantes e escuras, um contraste entre o tom de moça coquete e tom femme fatale. Tudo isso construído em sólidas bases de madeira nobre, almíscar e uma pontinha de tabaco... hummmm!
Tem abertura floral picante, peônias em profusão, cítricos azedinhos e algo meio tinto, como sumo ou seiva de madeira ainda viva. Um desaforo às narinas na primeira borrifada - saído de um frasco para lá de inusitado que já virou metonímia: quem nunca ouviu falar do perfume "Olívia Palito"?
Com o tempo, ganha mais substância com rosas misteriosas, adultas e assabonetadas, como aroma de produtos de beleza um pouco vintage, talco ou maquilagem, além de flores brancas narcóticas. Cresce em uma dimensão mais horizontal, que vai perdendo em projeção e ganhando em mistério, ficando cada vez mais facetado e mais rente à pele.
As notas finais sugerem um interessante mix de ambargris, almíscar e fava tonka em sua carinha mais 'suja', escurecida e enfumaçada, o que pode dar alguns traços de tabaco de cachimbo, com seu quê adocicado, com camadas de alguma flor misteriosa e noturna - seria rosa negra? Orquídeas phalaenopsis? Cravo vermelho? É justamente neste mistério que está o encanto de Cheap and Chic, a ironia de ser simples e grandioso.
Um curinga de prateleira, para quem quer uma proposta sexy, jovem e que transmita elegância e atitude. Fixação excelente e projeção moderada, que valem o investimento.
Popeye, faça alguma coisa!!!


terça-feira, 14 de agosto de 2018

Sob o Sol da Toscana - Floratta L'Amore d'O Boticário Deo Colônia - Resenha

Pega a pipoquinha, coloca o pijaminha e vem assistir filme água-com-açúcar comigo! Se tem filminho gostoso, para esquecer perrengues e tristezas, para pensar em uma volta por cima nessa vida de reveses é Sob o Sol da Toscana. Assistir a Frances se reinventar em um cenário esplêndido, de campos floridos e luzes douradas, refresca a alma e deixa o dia mais leve. 
Hoje testei o lançamento d'O Boticário Floratta L'Amore e imediatamente senti os ares da Toscana, mas o momento mais impactante foi a entrada, o cítrico adocicado de limão siciliano do acorde de Limoncello. No filme, o gatíssimo Marcello (interpretado pelo impecável Raoul Bova - que espetáculo de ator!) dá a receita do tradicional Limoncello em Positano: vodka, limões e açúcar. Essa receitinha fofa aqui:


Bom, Floratta L'Amore tem um acorde cítrico/adocicado/frutado logo na entrada, um espirro de sumo de limão siciliano que borbulha no nariz, mas com doçura, diferentemente dos tradicionais limões das colônias (Roger Gallet Jean Marie Farina, 4711 e congêneres). Tem um quê crocante e suculento de peras e maçãs-verdes, um caldo de frutas maduras - pêssegos, damascos, tangerinas - e um fizz mais azedinho, simultaneamente. 
Cresce em flores brancas de jardim, um coração florido de primavera, delicado e mimoso. E ainda persiste uma doçura de mel de pedúnculo, uma sensação adocicada e levemente alcoólica, ao qual provavelmente a marca tentou imprimir sua receita de limoncello. Funciona de maneira breve, em flashes entremeados às flores. Ao final, o musgo amadeirado/musky, tipicamente O Boticário, indefectível entre as criações da marca, que fica um pouco sabonetinho, shampoo ou produto de banho, para dar a cara limpinha e asseada, terminando a fragrância de forma bem suave e linear.



Projeção: Intensa na primeira hora, porém duração um tanto efêmera. Em mim, durou três horas, e nas duas finais com uma aura floral bem rente à pele. Há que se considerar dois fatores para esta característica: seu perfil cítrico e o fato de ser uma deo colônia. Uma vez que é o lançamento para a primavera que se avizinha, acredito que seja uma proposta adequada para dias de calor. Como o affair de Frances e Marcello - durou exatamente o que havia de durar. 




segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Abraça-me com ternura - Kenzo Amour EDP - Resenha

Hoje me dei conta que nunca falei desse lindo, e olha que está no meu top 5! Como assim? Como fui esquecer esse travesseirinho, esse aconchego adocicado? 
Kenzo Amour é macio, sem nenhuma aresta. Morninho. É um tacho de arroz-doce apurando no fogo de lenha, carinho de vovó que mima. Uma criação tão singular, tão sem par. 
Tem uma abertura empoada de arroz - isso mesmo, arroz! - chá e algo lactônico e cremoso, que apesar de ter doçura, traz mais uma sensação de cremosidade, de sabor suave e levemente condimentado, como canela fervida ou uma pitada de noz-moscada. 
No corpo, possui a nobreza de flores brancas, igualmente untuosas, amanteigadas - pluméria, sakura e acácias - e encerra na secagem com nobres madeiras incensadas, baunilha, musc e notas atalcadas, uma nuvem de talco sequinho e empoado. É de uma nobreza, uma distinção... uma das fragrâncias que me desperta as melhores sensações, que não é incômoda, não é invasiva, é um verdadeiro abraço carinhoso, um afago. 
É um EDP, mas sem grandes arroubos de projeção, já que sua proposta é intimista. Porém, tem uma duração muito longeva, rente à pele e comedida. Um conforto especial, com a criatividade que as fragrâncias Kenzo sempre trazem, não sendo óbvio, mas ao mesmo tempo não gritando por atenção. O frasco belíssimo de autoria de Karim Rashid é uma criação digna de museus de arte contemporânea, que vale a pena ostentar na prateleira. 



Imagem: kenzoparfums.com

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Complicada e Perfeitinha - Natura Luna Desodorante Colônia - Resenha

Tenho fases, como a lua. 
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua... 

O acorde chypre. Como é belo, em sua natureza verde e intrigante. Como é bela a lua nova, misterioso sorriso pousado sobre crepúsculo ao lado da Vênus que cintila, um rastro da face à mostra enquanto o todo dá as costas à Terra. Um recolhimento doce, como frutas silvestres, maçãs e mel de madressilva. Vento outonal em sépia, Luna abre em frutas agridoces e citrinos cintilantes. 

Fases que vão e vêm, 
no secreto calendário 
que um astrólogo arbitrário 
inventou para meu uso.

Florais, esses são lindos! Lua crescente que cruza os céus da madrugada à manhã. Rosas primaveris, violetas, amores-perfeitos e delicados jasmins. Cachoeiras de pétalas a cair pelos cachos, botões se abrindo nas manhãs de setembro. Beleza espontânea de natureza que se multiplica e se renova. Uma fragrância feminina como as flores primaveris, Luna tem esta face de encanto juvenil e cândido.

Perdição da vida minha! 
Tenho fases de ser tua, 
tenho outras de ser sozinha.

Lua cheia de verão. Mata fechada exalando mistérios e mormaços. Natureza feminina que instiga e convida ao calor. Absoluta no céu, apaga estrelas e lança sobre os enamorados seu banho de prata. Folhagens e baunilhas tropicais que atordoam sentidos. Coração cálido que bate entre curvas sinuosas do colo que instiga. As notas de corpo são sedutoras e adocicadas, que mantém uma aura verde e natural caudalosa.

E roda a melancolia 
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém 
(tenho fases como a lua...)

Recolhimento e desfecho. Lua minguante fugidia, que esfria ânimos e amores. Musgos e patchouli na noite úmida e fria de inverno que promete geada. Zéfiro que balança os cabelos e carrega o aroma das raízes expostas e galhos despidos dos cedros e plátanos. Luna mantém sua alma de chypre floral moderno até seu drydown, em madeiras e tons musgosos amaciados por gentil almiscarado.

No dia de alguém ser meu 
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia, 
o outro desapareceu...

Como o arquétipo feminino da Lua, Luna tem suas fases, ora suaves acordes florais, ora suculento com frutal, passando do terroso/herbáceo ao amadeirado-almiscarado. Uma bela fragrância para mulheres radiantes e confiantes, que seduzem ao abraçar cada uma das suas faces. Mulheres têm fases, e cada uma delas tem sua beleza, sua força e seu mistério. Apenas quem é suficientemente atento está autorizado a desvendá-las. 

Complicada e perfeitinha, você apareceu.





Referências: Cecília Meirelles: Lua Adversa
Raimundos: Mulher de Fases (quem viveu nos anos 90 sabe do que estou falando!)    

Imagem: natura.net

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

50 tons de excesso - S. Excès Femme Eudora - Resenha

Um calor de brasa acesa - esta é a primeira imagem que me vem à mente ao pensar nesta fragrância. É corajosa, é grande e superlativa. Isso porque difere de todas as tendências de mercado nacional, em sua ousadia de combinar poucas notas em uníssono. Oud, íris e madeira - só. 
Tem algo animálico e enfumaçado, um aroma humano e carnal, sexy mesmo, sem nenhuma pretensão de ser ingênuo ou inocente, é sedução escancarada e puramente boudoir. Essa ousadia precisa de ambiente e ocasião para ser revelada, como a própria proposta da linha S da Eudora. São produtos voltados à arte de seduzir, de usar a dois.
Abre em oud, forte, impactante - quase masculino. Tem alma resinosa, quente, como vela escorrendo e vapores abafados. A primeira borrifada pode assustar, porque não faz nenhum devaneio ao seu destino, o recado é dado logo de cara. 
É uma sedução de roupa espalhada pelo chão, aquelas cenas de filme bem exageradas que o casal não consegue esperar e vai loucamente se esparramando pelo caminho, que borra batom, que saltam botões e tudo vira um emaranhado de pele. Não é lingerie preta e pérolas, não tem espera e joguinhos de sedução, não tem lençóis de cetim e meia luz, está mais para um ritual de acasalamento digno de Discovery Channel - só que entre quatro paredes. 
Tem um patchouli 'sujo' ali, ah se tem. Úmido, terroso, suado e orgânico. Flor viva - ora, o que é a flor se não um receptáculo fértil em sua função reprodutiva? Fumaça, calor, madeira seca e íris talcada. Humano e febril. 
Talvez a sua ousadia o tenha tirado dos catálogos - corri garantir o meu assim que soube que sairia de linha. Mas quem sabe a Eudora não resolve fazer um revival, hein?
Fixação excelente graças à sua alma resinosa, projeção intensa nos primeiros momentos que se mantém ao longo de 9 horas ou mais. 

Touch me like you do!