terça-feira, 14 de agosto de 2018

Sob o Sol da Toscana - Floratta L'Amore d'O Boticário Deo Colônia - Resenha

Pega a pipoquinha, coloca o pijaminha e vem assistir filme água-com-açúcar comigo! Se tem filminho gostoso, para esquecer perrengues e tristezas, para pensar em uma volta por cima nessa vida de reveses é Sob o Sol da Toscana. Assistir a Frances se reinventar em um cenário esplêndido, de campos floridos e luzes douradas, refresca a alma e deixa o dia mais leve. 
Hoje testei o lançamento d'O Boticário Floratta L'Amore e imediatamente senti os ares da Toscana, mas o momento mais impactante foi a entrada, o cítrico adocicado de limão siciliano do acorde de Limoncello. No filme, o gatíssimo Marcello (interpretado pelo impecável Raoul Bova - que espetáculo de ator!) dá a receita do tradicional Limoncello em Positano: vodka, limões e açúcar. Essa receitinha fofa aqui:


Bom, Floratta L'Amore tem um acorde cítrico/adocicado/frutado logo na entrada, um espirro de sumo de limão siciliano que borbulha no nariz, mas com doçura, diferentemente dos tradicionais limões das colônias (Roger Gallet Jean Marie Farina, 4711 e congêneres). Tem um quê crocante e suculento de peras e maçãs-verdes, um caldo de frutas maduras - pêssegos, damascos, tangerinas - e um fizz mais azedinho, simultaneamente. 
Cresce em flores brancas de jardim, um coração florido de primavera, delicado e mimoso. E ainda persiste uma doçura de mel de pedúnculo, uma sensação adocicada e levemente alcoólica, ao qual provavelmente a marca tentou imprimir sua receita de limoncello. Funciona de maneira breve, em flashes entremeados às flores. Ao final, o musgo amadeirado/musky, tipicamente O Boticário, indefectível entre as criações da marca, que fica um pouco sabonetinho, shampoo ou produto de banho, para dar a cara limpinha e asseada, terminando a fragrância de forma bem suave e linear.



Projeção: Intensa na primeira hora, porém duração um tanto efêmera. Em mim, durou três horas, e nas duas finais com uma aura floral bem rente à pele. Há que se considerar dois fatores para esta característica: seu perfil cítrico e o fato de ser uma deo colônia. Uma vez que é o lançamento para a primavera que se avizinha, acredito que seja uma proposta adequada para dias de calor. Como o affair de Frances e Marcello - durou exatamente o que havia de durar. 




segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Abraça-me com ternura - Kenzo Amour EDP - Resenha

Hoje me dei conta que nunca falei desse lindo, e olha que está no meu top 5! Como assim? Como fui esquecer esse travesseirinho, esse aconchego adocicado? 
Kenzo Amour é macio, sem nenhuma aresta. Morninho. É um tacho de arroz-doce apurando no fogo de lenha, carinho de vovó que mima. Uma criação tão singular, tão sem par. 
Tem uma abertura empoada de arroz - isso mesmo, arroz! - chá e algo lactônico e cremoso, que apesar de ter doçura, traz mais uma sensação de cremosidade, de sabor suave e levemente condimentado, como canela fervida ou uma pitada de noz-moscada. 
No corpo, possui a nobreza de flores brancas, igualmente untuosas, amanteigadas - pluméria, sakura e acácias - e encerra na secagem com nobres madeiras incensadas, baunilha, musc e notas atalcadas, uma nuvem de talco sequinho e empoado. É de uma nobreza, uma distinção... uma das fragrâncias que me desperta as melhores sensações, que não é incômoda, não é invasiva, é um verdadeiro abraço carinhoso, um afago. 
É um EDP, mas sem grandes arroubos de projeção, já que sua proposta é intimista. Porém, tem uma duração muito longeva, rente à pele e comedida. Um conforto especial, com a criatividade que as fragrâncias Kenzo sempre trazem, não sendo óbvio, mas ao mesmo tempo não gritando por atenção. O frasco belíssimo de autoria de Karim Rashid é uma criação digna de museus de arte contemporânea, que vale a pena ostentar na prateleira. 



Imagem: kenzoparfums.com

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Complicada e Perfeitinha - Natura Luna Desodorante Colônia - Resenha

Tenho fases, como a lua. 
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua... 

O acorde chypre. Como é belo, em sua natureza verde e intrigante. Como é bela a lua nova, misterioso sorriso pousado sobre crepúsculo ao lado da Vênus que cintila, um rastro da face à mostra enquanto o todo dá as costas à Terra. Um recolhimento doce, como frutas silvestres, maçãs e mel de madressilva. Vento outonal em sépia, Luna abre em frutas agridoces e citrinos cintilantes. 

Fases que vão e vêm, 
no secreto calendário 
que um astrólogo arbitrário 
inventou para meu uso.

Florais, esses são lindos! Lua crescente que cruza os céus da madrugada à manhã. Rosas primaveris, violetas, amores-perfeitos e delicados jasmins. Cachoeiras de pétalas a cair pelos cachos, botões se abrindo nas manhãs de setembro. Beleza espontânea de natureza que se multiplica e se renova. Uma fragrância feminina como as flores primaveris, Luna tem esta face de encanto juvenil e cândido.

Perdição da vida minha! 
Tenho fases de ser tua, 
tenho outras de ser sozinha.

Lua cheia de verão. Mata fechada exalando mistérios e mormaços. Natureza feminina que instiga e convida ao calor. Absoluta no céu, apaga estrelas e lança sobre os enamorados seu banho de prata. Folhagens e baunilhas tropicais que atordoam sentidos. Coração cálido que bate entre curvas sinuosas do colo que instiga. As notas de corpo são sedutoras e adocicadas, que mantém uma aura verde e natural caudalosa.

E roda a melancolia 
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém 
(tenho fases como a lua...)

Recolhimento e desfecho. Lua minguante fugidia, que esfria ânimos e amores. Musgos e patchouli na noite úmida e fria de inverno que promete geada. Zéfiro que balança os cabelos e carrega o aroma das raízes expostas e galhos despidos dos cedros e plátanos. Luna mantém sua alma de chypre floral moderno até seu drydown, em madeiras e tons musgosos amaciados por gentil almiscarado.

No dia de alguém ser meu 
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia, 
o outro desapareceu...

Como o arquétipo feminino da Lua, Luna tem suas fases, ora suaves acordes florais, ora suculento com frutal, passando do terroso/herbáceo ao amadeirado-almiscarado. Uma bela fragrância para mulheres radiantes e confiantes, que seduzem ao abraçar cada uma das suas faces. Mulheres têm fases, e cada uma delas tem sua beleza, sua força e seu mistério. Apenas quem é suficientemente atento está autorizado a desvendá-las. 

Complicada e perfeitinha, você apareceu.





Referências: Cecília Meirelles: Lua Adversa
Raimundos: Mulher de Fases (quem viveu nos anos 90 sabe do que estou falando!)    

Imagem: natura.net

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

50 tons de excesso - S. Excès Femme Eudora - Resenha

Um calor de brasa acesa - esta é a primeira imagem que me vem à mente ao pensar nesta fragrância. É corajosa, é grande e superlativa. Isso porque difere de todas as tendências de mercado nacional, em sua ousadia de combinar poucas notas em uníssono. Oud, íris e madeira - só. 
Tem algo animálico e enfumaçado, um aroma humano e carnal, sexy mesmo, sem nenhuma pretensão de ser ingênuo ou inocente, é sedução escancarada e puramente boudoir. Essa ousadia precisa de ambiente e ocasião para ser revelada, como a própria proposta da linha S da Eudora. São produtos voltados à arte de seduzir, de usar a dois.
Abre em oud, forte, impactante - quase masculino. Tem alma resinosa, quente, como vela escorrendo e vapores abafados. A primeira borrifada pode assustar, porque não faz nenhum devaneio ao seu destino, o recado é dado logo de cara. 
É uma sedução de roupa espalhada pelo chão, aquelas cenas de filme bem exageradas que o casal não consegue esperar e vai loucamente se esparramando pelo caminho, que borra batom, que saltam botões e tudo vira um emaranhado de pele. Não é lingerie preta e pérolas, não tem espera e joguinhos de sedução, não tem lençóis de cetim e meia luz, está mais para um ritual de acasalamento digno de Discovery Channel - só que entre quatro paredes. 
Tem um patchouli 'sujo' ali, ah se tem. Úmido, terroso, suado e orgânico. Flor viva - ora, o que é a flor se não um receptáculo fértil em sua função reprodutiva? Fumaça, calor, madeira seca e íris talcada. Humano e febril. 
Talvez a sua ousadia o tenha tirado dos catálogos - corri garantir o meu assim que soube que sairia de linha. Mas quem sabe a Eudora não resolve fazer um revival, hein?
Fixação excelente graças à sua alma resinosa, projeção intensa nos primeiros momentos que se mantém ao longo de 9 horas ou mais. 

Touch me like you do!



quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Império dos Sentidos - Natura Una Senses Deo Parfum - Resenha

Ah, a perfumaria nacional! Como a era da informação e as possibilidades de comunicação e compreensão de mercados, públicos e a aquisição de referências locais e internacionais contribuem com a elevação da qualidade dos produtos no mercado interno. A Natura sempre caprichou, em conceito, embalagens e matérias primas. Desde sua fundação, aos áureos anos 1990 - tempos de Shiraz, Revelar, Intuição e toda a troupe - passando pelas novidades atuais. É uma casa respeitável, que entende o público e a pele brasileira, que traz elementos culturais relevantes na hora de elaborar seu portfólio de fragrâncias. 
A linha Una é capitaneada pelas maquiagens premium voltadas ao público mais exigente - excelentes, diga-se de passagem - e também conta com linha de hidratantes e óleos corporais, acessórios como pinceis e estojos, além das fragrâncias. A primeira foi o Natura Una Deo Parfum (ainda faço uma resenha especial para ela), seguido do Natura Una Intenso e Natura Una Artisan. O lançamento que estará nos catálogos deste mês é o Natura Una Senses Deo Parfum, que provei pessoalmente na loja física. Segue o mesmo padrão caprichado, com embalagem super bem feita, em vidro esverdeado no mesmo formato dos demais. 
Ao provar, o balanço da fita próximo ao nariz já revela nuances florais de tuberosa e jasmim, além da tangerina - que acompanha todas as demais fragrâncias Una, ora mais doce, ora mais pungente. Sem demora, revela o calor macio e amendoado da fava tonka (cumaru), e opa! Já conheço esse flash de outro lindão... Mas se não é o Hipnotic Poison dando as caras! Não é dupe - já aviso - mas tem um quê desse famoso aí. Tem sim. Embora seu caráter seja mais floral e almiscarado, e o HP da casa Dior tenha mais coco e âmbar licoroso, eles guardam grandes similitudes. 
Na pele, evoluem em caminhos diferentes - testei os dois juntos, além do Minha Inspiração da Contém 1g - porque também tem essa fama de ser um HP wannabe. O Una Senses ganha mais espirais, mais flores brancas, com um quê narcótico e marcante. Tem essa faceta de mistério e natureza graças ao Patchouli Heart, que o torna terroso, misterioso, úmido... HP fica mais adocicado, cremoso e levemente enfumaçado enquanto o Minha Inspiração vira um licor de amêndoas, tipo amaretto mesmo. Cada um em sua proposta, têm a mesma alma sensual e adocicada, altamente viciante, que torna impossível passar despercebido. 
Natura Una Senses é uma escolha de qualidade, que tem tudo para ganhar corações. Apenas prestar atenção ao fato de que é um flanker, e, como tal, pode sumir dos catálogos de uma hora para outra. Se você gostar, vale ficar de olho se permanece no portfólio da marca, ou se é conveniente guardar um de reserva. Duração de 7h, com projeção intensa nas primeiras duas, que desce rente à pele depois. 


Imagem: natura.net

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Doce surpresa - Orissima EDP de Ted Lapidus - Resenha

Em tempos estranhos como esses últimos dias - não sabemos se acompanhamos as notícias ou se fazemos um isolamento voluntário embaixo das cobertas - em que a moeda e o humor oscilam, que a gente precisa de um afaguinho, um Nescau quente e uma pequena dose de autoindulgência para manter a sanidade mental, vem a casa Ted Lapidus, com suas 'bombinhas' que são o maior barato e dão uma alegria inesperada. Tô falando do Orissima EDP, um caramelo querido e quentinho que me surpreendeu positivamente!
A ideia da marca é transmitir a aura da mulher parisiense, para brilhar como a cidade luz, inspirado nos tons de ouro e na arquitetura urbana da Cidade Luz. Com 15 trumpinhos comprei um de 30ml, e voilá, me senti rica, querida e calorosamente abraçada por uma generosa dose de caramelo, com uma íris macia (alô alô La Vie est Belle!) e patchouli achocolatado. Mas pera aí, tem uma surpresa chypre nesse calor todo, uma aura verde/amarga/frutada, então não dá para afirmar que seja um dupe, longe disso. Tem cara e personalidade próprias. 
Não evolui como o La Vie, a coisa toda descansa mais rápido e perde as arestas, além de amornar mais almiscarado e menos gourmand. Fica redondinho e manso, sabe como? Tem uma pontinha de casca de laranja fervida e damasco, que me deu um flash do D&G The One, mas isso já nas horas finais. Fixa legal, menos que outras bombas Ted Lapidus (tô falando de Fantasme, Rumba e cia) mas ainda assim com muita dignidade, coisa de umas sete a oito horas. Projeta bem na primeira hora, e depois se comporta como o esperado para um EDP, quente, rente à pele e relativamente linear.
Frasco bonito, bem feito e planejado com cuidado, borrifador honesto e caixinha resistente. Sem culpa na crise, e muito cheirosa(a)!!! 




domingo, 15 de abril de 2018

Uma rosa é uma rosa é uma rosa - English Rose EDT - Yardley London

Mas se tem coisa boa nesse mundo é cheirinho de rosas. Amo em todas as versões, da empoada antiguinha, à doce quase fruta, mas a melhor das melhores sensações é a da rosa fresca, orvalhada e 'crunchy', a rosa debutante, rosa clarinha. O Esta Flor Rosa da Natura estava no meu pódio até pouco tempo, além da água da Avatim e da English Rose da Mahogany (que me agradava mais o aromatizador de ambientes e o sabonete do que o perfume propriamente dito). Aí pesquisando muito, vi que o English Rose da Yardley London era tido como um dos mais fieis ao estilo da rosa fresca recém cortada. Mais que Chloe EDP e Make me Fever Gold (esse último um dupe nacional da melhor qualidade). Eis que acho o bonito de 125 ml por US$ 14,00 em Ciudad del Este. Com direito a talquinho combinando e tudo. Mas é claro que eu arrematei né? E como fiquei feliz!
Que cheiro de jardim, dos livros da Jane Austen, de chá das cinco. Um mimo de frasco, de cor e de espírito, uma auto-indulgência baratíssima, felicidade engarrafada. 
É um floral de corpo e espírito, sem fruta, sem açúcar. Muita seiva, algo verde e cristalino, adstringente, sem qualquer meandro ao caminho da flor. Aquele aroma exato de aproximar o rosto de uma rosa cor-de-rosa ou champagne, clara, ausente de mistérios e com inocência de sobra. Mas engana-se quem acha que é uma fragrância fácil, ela tem um leve ardor, algo amarguinho, que não facilita o trajeto - afinal, rosas têm espinhos - e essas arestas podem ser incômodas para alguns. 
Para quem gosta de amanheceres etéreos e orvalhados, e não se importa em umedecer a barra do vestido, English Rose é um Eau de Toilette da melhor estirpe, com fixação e projeção excelentes para essa proposta!